Uma história cristã em Londres

Talvez não haja uma cidade no mundo na qual Deus tenha sido tão generoso com sua graça quanto a cidade inglesa de Londres, a terra dos puritanos. Quantos avivamentos, mártires, confissões, documentos e tantos outros registros de fé legados para que nós, povo de Deus espalhado pelo mundo, tenhamos pra onde olhar e imitar. Glória a Deus pelos seus feitos na história, os quais devem sempre nos levar a lembrarmos dos irmãos do passado, suas obras, motivações, arrancando de nós o mesmo suspiro que um dia alguém bradou aos pés do túmulo de um puritano: Senhor, faz de novo! Que a história dos feitos de Deus através de seus servos em Londres seja em nós uma fonte inesgotável de inspiração, um alavancar para a santidade e para a glória Daquele que é o mesmo ontem, hoje e sempre, que faz Seus grandes feitos aqui, agora, em nossa época, onde vivemos, e que ainda chama os seus discípulos para exalarem o mesmo perfume da mesma velha e poderosa mensagem da cruz.

John Owen

Nascido em Stadhampton em 1616, John Owen é o mais bem conceituado teólogo puritano. E, ao lado de João Calvino e Jonathan Edwards, muitos o tratam como os três maiores teólogos reformados de todos os tempos.

  • O lugar onde John Owen foi enterrado

John Owen faleceu em 24 de Agosto de 1683 em Londres no Cemitério Burnhill Fields.

John Bunyan

John Bunyan nasceu em 28 de Novembro de 1628 em Harrowden, Elstow, Inglaterra. Foi um filho de latoeiro, semi-analfabeto que se tornou notável como pregador, exercendo a maior parte de seu ministério em Bedford. Ele passou 12 anos de sua vida na prisão pelo crime de pregar o Evangelho e escreveu quase cinquenta livros, inclusive o clássico O Peregrino 

  • O lugar onde Bunyan foi enterrado

John Bunyan faleceu em 1688. Seus restos mortais estão no Cemitério Burnhill Fiels a aproximadamente 10 metros do túmulo de John Owen que falecera cinco anos antes.

John Wesley

John Wesley nasceu no dia 17 de junho de 1703 em Epworth, Inglaterra.

  • O lugar onde John Wesley se converteu

Depois de ser ordenado clérigo pela Igreja Anglicana e passar alguns maus momentos como missionário entre os índios na Georgia, hoje Estados Unidos, muitas questões sobre a vida pratica crista passaram a incomodar John Wesley, principalmente depois que conheceu, na América, a profunda confiança em Deus dos pietistas morávios. Ao regressar à Inglaterra, dois anos depois, Wesley aceitou com relutância um convite de Peter Bohler, pregador pietista, para participar de um culto entre os morávios que se reuniam na Aldersgate Street em Londres, exatamente onde hoje é o Museu de Londres.  

Numa reunião pietista, durante uma simples leitura do prefácio da Epístola aos Romanos de Martinho Lutero, Wesley foi visitado de modo especial pela graça de Deus. Em seu diário, ele registrou que naquele dia provara da experiência do coração aquecido: “À tarde, visitando a sociedade em Aldersgate Street, li o Prefácio da Epístola aos Romanos de Lutero, cujas palavras tocaram-me profundamente. Senti meu coração bater fortemente. E, desde aquele momento, aprendi a confiar em Cristo e somente em Cristo como meu Salvador. Passei a ter plena segurança de que meus pecados foram perdoados e de que fui salvo da lei do pecado e da morte”.

Hoje não existe mais nenhum grupo de morávios na Aldersgate Street, e no local onde antes eles se reuniam encontra-se o Museu de Londres. No entanto, essa famosa experiência de John Wesley esta devidamente registrada na historia britânica com uma grande placa (No primeiro quadro acima) no hall de entrada do Museu. Nela, estão escritas as palavras que Wesley registrou no seu diário no dia 24 de maio de 1738.

  • City Road Church, a igreja de John Wesley

No dia 18 de junho de 2011 visitamos mais uma vez a famosa City Road Church, que atualmente é conhecida como a Igreja de John Wesley. Além da igreja, a estrutura do local inclui a casa museu de John Wesley, o Museu Metodista, o cemitério e a Missao Leysian, e isso sem considerar o Burnhill Fiels, um importante cemitério localizado do outro lado da rua, no qual esta enterrada a piedosa mae de John, Susana Wesley.

Na entrada da igreja há um monumento a ele com o dizer: “Minha paroquia é o mundo!”. Tal frase expressa o grande anseio de Wesley com a evangelização do mundo. Hoje ha cerca de 300 membros na igreja, dos quais muitos sao africanos. Os proprios metodistas ingleses entendem que essa forte participação africana se deve ao impulso missionário de John Wesley e os primeiros metodistas.

A construção do templo teve inicio em 1777, sendo inaugurado em 1778. Personagens importantes da historia britânica marcaram presença entre os metodistas da City Road como, por exemplo, Margareth Tatcher, primeira ministra britânica (1979-1990), que casou nesse templo em 1951.

No centenário da morte de John Wesley foi realizada uma reforma do templo, na qual os mastros originais de madeira de carvalho que sustentavam a galeria foram substituídos por outros de mármore. Na foto (à esquerda), a guia da igreja nos mostra a parte que restou da estrutura original.

Ao lado da igreja, porém bem a frente, estava a casa dos Wesley, a qual veio a se tornar a casa museu. Dentro dela, um prédio de quatro andares, porém com cômodos bem apertados, a família Wesley viveu por muitos anos. Ao longo dos compartimentos, muitos objetos de uso pessoal estavam em exposição, tais como a mobília, trajes típicos, quadros, livros, mapas, lamparinas e etc. Foi muito interessante observar a grande quantidade de livros de logica, física e matemática presentes na biblioteca, e nao apenas livros de teologia. Outros locais marcantes da casa foram a cama onde Wesley faleceu e o lugar de oração em seu quarto. Infelizmente não foi possível registrar tudo isso, pois não era permitido tirar fotos dentro da casa.

Localizado abaixo do templo encontra-se o Museu Metodista que traz muitos outros materiais da família Wesley e da historia do Metodismo. Letras originais, hinarios e cartas de Charles Wesley estao devidamente preservadas no local. Quadros, livros, um púlpito onde os Wesleys pregaram, entre tantos outros objetos podiam ser encontrados.

Há túmulos no jardim à entrada do templo, e o próprio túmulo de John Wesley na pátio atrás da igreja (à esquerda).

No jardim frontal da igreja há um obelisco que aponta para o local onde Susana Wesley, a mãe de John e Charles, foi enterrada (ao lado), logo em frente da igreja, do outro lado da rua, no cemitério Burnhill Fields. Da janela do quarto da casa de John, ao lado da igreja, dava para ver o túmulo de sua mãe, que também foi considerada a Mãe do Metodismo.

George Whitifield

George Whitifield nasceu em Gloucester, Inglaterra, em 16 de dezembro de 1714.

  • “The American Church” in London, a igreja de George Whitifield

George Whitifield esperava começar uma casa de reuniões na Rua Long Acre em Londres, próximo de onde hoje é a famosa Covenant Garden, pois os cultos realizados ali haviam formando uma grande congregação. No entanto, ele obteve um terreno um pouco distante dali, uma propriedade rural na Estrada da Corte de Tottenham, e imediatamente começou a construir uma grande capela (Em 1741).

Segundo Arnold Dallimore em sua biografia de Whitifield, “O edifício media 70 pés por 127, aparentemente com duas galerias em cada um dos três lados. Era sem dúvida a maior igreja não oficial em toda e qualquer parte do mundo” (p.236). Dallimore ainda menciona que “O Tabernáculo, embora, com suas galerias circundantes, com capacidade para cerca de quatro mil pessoas, ficava lotado quase ao ponto de sufocação, em toda parte”.

Dallimore salienta que “atrás da Capela ele construiu uma residência para um ministro e um asilo com doze casas cedidas de graça a viúvas pobres. Embaixo da Capela havia catacumbas”. Whitifield desejava que ele, a Sra. Whitifield, os pastores da Capela e os senhores Wesley, Charles e John, fossem sepultados ali.

Depois de estar de pé durante um século, a Capela precisava de amplos reparos. Ela foi reconstruída, muito menor que antes, mas durante a Segunda Guerra Mundial foi destruída pela ação do inimigo. Posteriormente foi reconstruída e, embora o designativo na entrada dissesse “The Whitefield Memorial Chapel”, mais tarde o nome foi alterado, e atualmente o edifício se chama The American Church in London”.

Charles Spurgeon

Charles Spurgeon foi conhecido como o “Príncipe dos Pregadores”. Em seus sermões, ele sempre apresentou as grandes doutrinas da Palavra de Deus, expondo temas como a corrupção do homem; a livre graça de Deus na eleição de pecadores; a expiação de Cristo e a suficiência das Escrituras.

  • Tabernáculo Metropolitano, a igreja de Spurgeon

 

  • Spurgeon College, aquela que fora a escola de pastores de Spurgeon

Sua última pregação no Tabernáculo Metropolitano foi no dia 06 de junho de 1891, falecendo em Montane, sul da França, aos 57 anos apos uma prolongada enfermidade. No dia 04 de janeiro de 1892, Londres parou para o enterro de Charles Spurgeon. Nesse dia 6.000 pessoas leram juntas Isaias 45:22, o texto de sua conversão.

Dr. Martyn Lloyd-Jones

  • A Capela de Westminster

A quase 200 metros do palácio de Buckingham esta a famosa Capela de Westminster. Fundada em 1840 no lugar onde antes era o Hospital de Westminster, a Capela é um dos lugares mais saudosos da história reformada londrina.

 

A Capela tornou-se famosa por ter sido o lugar onde o Dr. Martyn Lloyd-Jones ministrou por trinta anos (1938-1968). A foto acima nos lembra um pouco a capa do seu Comentário de Romanos. De fato, estar aqui é um convite a sentir um pouco dos momentos gloriosos de exposição bíblica que ocorriam nas noites de sexta-feira em Londres. Graças a Deus pelo legado escrito desses momentos!

Ao lado, temos o púlpito onde o Dr. Martyn Lloyd-Jones costumava pregar. Infelizmente após sua saída do ministério na capela, a igreja não foi mais a mesma. Quem sabe, se estivessem comprometidos com alguma confissão de fé reformada, e não estivessem tão dependentes de um único líder, talvez não tivessem perdido o legado deixado pelo doutor.

 

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Mais mel no “Dia das Mães!”

O “Dia das Mães” ganhou em mel, pela primeira vez minha donzela está no hall das homenageadas. Parabéns formosa minha! Por te conhecer, não tenho dúvidas, a piedade será o mais doce enfeite, um colar ao pescoço de nossa filha. Que os favos de teu amor sejam sempre o meu presente, a alegria de nossa vinha, a celebração do matrimônio e da maternidade, que torna o jardim mais belo e destila a fragrância de minha flor! Nossa filha te manda beijinhos… teu amado seu amor! Parabéns!

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OS ESCRITOS DE AGOSTINHO (W. Gary Crampton)

Os Três Maiores Oponentes de Agostinho

Ao longo de seu ministério, Agostinho confrontou três grandes adversários: os maniqueístas, os donatistas e os pelagianos. “Em sua própria experiência de vida,” comentou o historiador Clyde Manschreck, “ele enfrentou todos os problemas da igreja primitiva.”[1] Em seus debates contra esses movimentos heréticos, nós vemos o melhor de Agostinho como teólogo, filósofo e apologeta. Como Warfield destacou, qualquer um pode facilmente perceber o amadurecimento do pensamento de Agostinho através de seus escritos. Progressivamente, seu trabalho é desintoxicado da influência pagã.[2] De acordo com Naville: “Sem qualquer sombra de dúvida, quando nós estudamos cronologicamente as suas obras [de Agostinho], nós percebemos o lugar que a Escritura estava paulatinamente tomando. Nós sentimos que o autor tem mergulhado no estudo da Escritura e adquirido um conhecimento cada vez mais profundo. Seu próprio estilo tem sido modificado por tal influência.”[3] Além disso, como Reuter explanou: “O que foi dominante em seus últimos anos não foi uma noção de igreja como instituição da graça, mas a predestinação por graça”; “a doutrina da predestinação por graça foi o princípio fundamental de sua consciência religiosa.”[4]

Escritos Anti-Maniqueístas

Como já foi destacado, o Maniqueísmo foi um sistema de crenças adotadas pelo jovem Agostinho. Nós já temos visto que depois de permanecer por nove anos preso no cativeiro desta heresia gnóstica, ele a rejeitou. Após sua conversão, Agostinho confrontou os maniqueístas como o seu primeiro adversário. Ele assim o fez ao expor seus pontos de vista errôneos a respeito do dualismo final, minando seus falaciosos métodos do mais alto criticismo, demonstrando biblicamente que Deus não é o autor do mal e substanciando a razoabilidade da fé, coisas essas que já foram anteriormente discutidas.

Em sua luta contra o dualismo gnóstico dos maniqueístas, Agostinho também desenvolveu sua perspectiva bíblica “do uno e do muitos”. Ao longo dos séculos, a questão “do uno e do muitos” tem se destacado como um dos problemas mais intrigantes da filosofia. Como pode haver tanta diversidade em todo o mundo, enquanto pareça possuir uma unidade básica? Em meio a tanta complexidade, como ainda pode haver simplicidade? Qual é o fato básico da vida: unidade ou pluralidade, o uno ou o muitos? Se a resposta para esta última questão é “o uno,” então a unidade deve prevalecer diante da pluralidade. Se, por outro lado, a resposta é “o muitos,” então prevalece o individual e os particulares. Se “o uno” é a realidade última, então os particulares são suprimidas. Se “o muitos” é a realidade última, então o contrário é a verdade.[5]

Agostinho encontrou a solução para este suposto problema através da doutrina cristã da Trindade. Deus é “uno” em essência, ainda que em três (“muitos”) distintas pessoas. Ele é o eterno “Uno e Muitos.” As muitas coisas particulares deste mundo têm os seus arquétipos na mente de Deus. Agostinho chamou estes arquétipos de “razões eternas.” As razões eternas de Deus são os projetos arquitetônicos desde que ele criou o mundo. O mundo, que é o “uno e muitos” temporal,” é feito após as proposições divinas na mente de Deus. Por isso, há unidade na diversidade (On the Trinity 6:6-9; Conf. 7:15-21).[6] É assim que como verdade última devemos aceitar igualmente a ambos, unidade e diversidade, da mesma forma como aceitamos a igualdade da Trindade (o Uno) e o Pai, Filho e Espírito Santo (o Muitos).

Agostinho continuou a ensinar que Jesus Cristo, o eterno Logos de Deus, é o uno que nos traz a coerência entre o infinito e o finito, o Criador e a criação. Em outras palavras, Cristo é quem revela a solução para o problema do uno e do muitos. E sem o devido entendimento da teologia do Logos (i.e., Cristo como a eterna Palavra que veio revelar a verdade de Deus ao homem), não há uma real solução para o problema.[7]

Os escritos anti-maniqueístas de Agostinho incluem: De moribus ecclesiae catholicae et de moribus Manichaeorum [Sobre a moral da igreja católica e a moral dos maniqueístas], De duabus animabus [contra Manichaeos] [Sobre as duas almas - Contra os maniqueístas)], [Acta] contra Fortunatum [Manichaeum] [Atos contra Fortunato, o maniqueísta], Contra epistulam Manichaei quam vocant fundamenti [Contra a epístola do maniqueísta chamado fundamental], Contra Faustum [Manichaeum] [Contra Fausto, o maniqueísta], De natura boni contra Manichaeos [Sobre a natureza boa - Contra os maniqueístas]. Na virtual “profusão de seus escritos anti-maniqueístas,” asseverou Coyle, Agostinho, com muita erudição, desmascarou de modo minucioso e completo o sistema de pensamento maniqueísta. E “ele permanece como a maior autoridade entre todos aqueles que na antiguidade escreveram contra o Maniqueísmo.”[8]

Escritos anti-donatistas

O donatismo foi um movimento contra a igreja (chamado por Donato, bispo de Cartago de 313-347) que começou no Norte da África no início do quarto século. O imperador romano Dioclesiano estava perseguindo a igreja.[9] Como parte da perseguição, bispos cristãos não apenas tiveram que renunciar sua fé (ou morrer), mas ainda como prova disso, foram obrigados a entregar suas cópias das Escrituras. Aqueles bispos que assim fizeram foram conhecidos como os traidores.[10]

Infelizmente, muitos bispos se submeteram às exigências de Dioclesiano. Quando a perseguição arrefeceu, porém, muitos destes mesmos bispos retornaram aos seus antigos postos como se nada tivesse acontecido. Os donatistas protestaram fortemente contra isso. Nenhum traditor, eles afirmavam, deveria ser permitido servir na igreja de Cristo. E ainda, os sacramentos que haviam sido administrados por estes traditores foram declarados invalidos. Seria necessário um rebatismo. E também, se algum traditor retornasse para a igreja, seria rebatizado e deveria ser ordenado novamente. Os donatistas em seu zelo pela pureza da igreja confundiram a igreja visível com a invisível. De acordo com eles, ainda na era presente, todo o “joio” deveria ser arrancado.[11] “Os donatistas afirmaram contra os católicos,” escreveu Brown, “que, como a igreja era a única fonte de santidade, nenhum pecador poderia ter parte nela.”[12] Esses donatistas foram tão rigorosos, disse Roberts, que eles “insistiram que cada membro da igreja deveria ser um certificado santo, completamente santificado.”[13]

A igreja católica (não a Igreja Católica Romana), por outro lado, permitiu que todo bispo verdadeiramente arrependido voltasse à igreja sem a necessidade de se batizar novamente ou ser re-ordenado. A igreja também afirmou que todo o sacramento anteriormente administrado por esses bispos eram válidos. A “eficácia do sacramento,” ensinou a igreja, em concordância com a Confissão de Fé de Westminster (27:3) que mais tarde seria formulada, “não depende da piedade ou da intenção de quem o administra, mas da obra do Espírito e da palavra da instituição, a qual, juntamente com o preceito que autoriza o uso deles, contém uma promessa de benefício aos que dignamente o recebem.” Por isso, o rebatismo para aqueles que foram batizados por esses ex-traditores seria desnecessário.  Com efeito, dois grupos se formaram. Nenhum aceitaria os sacramentos um do outro. A igreja estava dividida. Violência e derramamento de sangue não foram coisas incomuns durante esse período.[14]

Agostinho se envolveu neste cisma no fim do quarto século (ca. 395). Ele foi um bispo católico numa comunidade predominantemente donatista em Hipona. Ele assumiu a causa católica contra os “cismáticos” donatistas, dando total apoio e mesmo expandindo as posições mencionadas acima. A santidade da igreja, arguiu Agostinho, não está nos membros da igreja, mas em Cristo seu cabeça. Agostinho afirmou que os donatistas devem se arrepender de suas crenças errôneas e participarem da igreja católica. Ele foi mais longe a ponto de declarar que a salvação descansa apenas na igreja católica. Os ensinos e os sacramentos administrados por estes bispos errantes eram para ser considerados inválidos se eles não estão presentes na igreja católica. Embaraçosamente, Agostinho ainda justificou o uso do poder civil romano para “compelí-los a entrar” – um uso equivocado das palavras de Cristo que se encontram em Lucas 14:23 (Letters 93; 185).[15]

Porém o principal argumento do bispo de Hipona veio da parábola de Jesus do joio e do trigo (Mat 13:24-30, 36-43) (Bapt. 4:9:14; City 20:9). Agostinho confessou que a igreja deveria ser mantida tão pura quanto possível, até mesmo ao ponto da igreja disciplinar sempre que necessário. Mas, ele disse, a igreja desta era seria sempre um corpus permixtum, i.e., um “corpo misturado” de crentes e descrentes. Disciplina em excesso, ensinou Agostinho, pode arrancar tanto o trigo quanto o joio (Cidade de Deus 20:9).[16] Ele escreveu: Relativamente a igreja misturada… A igreja a si mesma declara ser ambos no presente [uma mistura de crentes e não-crentes[  ]; e isto por que os peixes bons e maus estão misturados numa rede para um tempo determinado” (Doct. 3:32:45).

Aqui, Agostinho distinguiu entre a igreja visível e a invisível, o ensino mais tarde formulado pela Confissão de Fé de Westminster (25:1-2) como segue: a igreja invisível “consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, o cabeça” da igreja; a visível igreja, por outro lado, “consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos.” Devido ao rigoroso trabalho de Agostinho, a Igreja católica vencerá naquele dia.

Os escritos anti-donatistas de Agostinho incluem: De baptismo [contra Donatistas] [Sobre o batismo (Contra os donatistas)], Contra litteras Petiliani [Resposta as cartas de Petiliano, bispo de Cirta] e De correctione Donatistarum [A correção dos donatistas].

 Escritos anti-pelagianos

Ao passo que em seus escritos anti-donatistas nós encontramos elementos da inclinação católico-romana de Agostinho, é em suas obras anti-pelagianas que encontramos seu forte Protestantismo. “O mais influente legado do Protestantismo de Agostinho,” escreveu David Wright, “era seu corpus anti-pelagiano (411-430).”[17] R. C. Sproul é da mesma opinião. Ele comentou que “a Reforma testemunhou o triunfo final da doutrina da graça de Agostinho sobre a visão do homem legado pelo pelagianismo.”[18] Aqui nós somos confrontados com a doutrina pré-reformada de Agostinho sobre a graça: salvação unicamente pela graça (sola gratia) através somente da fé (sola fide) mediante Cristo somente (solus Christus) (Enchir. 30).

No fim do quarto século (c. 380), um monge britânico chamado Pelágio (ca. 354-418) começou a se preocupar com o afrouxamento da moralidade na igreja cristã. Salvação pela graça mediante a fé somente, ele pensou, poderia apenas guiar para uma ausência de preocupação quanto à santidade. Além disso, se Deus ordenou o homem a obedecer sua lei, então o homem deve ter a habilidade de cumprí-la. O homem deve possuir, disse Pelágio, uma vontade livre – uma vontade em que ele não apenas tem a liberdade, mas também a habilidade de obedecer a Deus. O homem não poderá pecar. E “nada,” afirmou John Piper, “chocou mais Pelágio do que a forte declaração da onipotente graça na oração de Agostinho: ‘Ordena o que quiseres, mas dá-nos o que ordenas.’”[19]

Pelágio partiu para encontrar o reverenciado bispo de Hipona, propondo confrontá-lo com essa questão. Mas em suas viagens ao longo do mundo mediterrâneo, ele nunca encontrou Agostinho. Porém, num aspecto negativo, Pelágio deixou a sua marca na igreja cristã. “Pelagianismo” é aquele sistema de crenças que nega a doutrina do pecado original. A teologia reformada, tal como exemplificada por Agostinho, ensina que quando Deus criou o homem (Adão), ele o designou como o representante federal ou o cabeça da aliança para com toda a raça humana, entrando numa “aliança de obras”, em que a vida foi prometida a Adão, e nele [como o representante de toda a humanidade] para toda a sua posteridade, para uma obediência perfeita e pessoal.

Como lemos em Romanos 5, porém, Adão desobedeceu a Deus. E desde que era o cabeça federal de toda a raça humana, seu pecado foi imputado a toda humanidade. Como afirmado no Breve Catecismo de Westminster (Q.16): “A aliança sendo feita com Adão, não apenas para ele mesmo, mas para sua posteridade; toda a raça humana, descendendo dele pela ordem da geração, pecou e caiu com ele em sua primeira transgressão.” Por isso, mediante a Queda, todos os homens são judicialmente culpados. O pecado de Adão foi imputado a todos.

Além disso, a Bíblia ensina que agora o homem em sua condição ética se encontra em “total depravação.” Como explanado pela Confissão de Fé de Westminster (6:2, 4): o homem é agora “morto em pecado, tendo todas as suas faculdades, alma e corpo totalmente corrompidos… de modo que somos completamente indispostos, incapazes e em oposição a todo o bem, sendo completamente inclinados a todo mal.” E ainda, diz a Confissão (9:3): “O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo se preparar para isso.”

Pelágio discordou desse tipo de teologia. O monge britânico ensinou que Adão foi criado por Deus num estado de neutralidade, ele não era nem santo, nem pecaminoso. Ele foi dotado com uma vontade livre capaz de fazer o bem e/ou o mal. Ademais, a desobediência de Adão não afetou ninguém mais além dele mesmo: cada homem que nasce neste mundo está na mesma condição que Adão estava quando vivia no Jardim do Édem. Cada um é livre de ambos, da culpa e da poluição do pecado. Por isso, o homem pode escolher não pecar, pois pecado é uma escolha. O homem permanece inocente e aperfeiçoável. Ele não peca porque é um pecador, mas é pecador porque peca. Consequentemente, Adão foi meramente um “mal exemplo” para o resto da humanidade. É assim que o pelagianismo ensina uma falsa doutrina da salvação por obras.[20]

Agostinho defendeu a fé bíblica contra a heresia pelagiana. Ele sustentou as doutrinas do pecado original e de Adão como o representante federal da raça humana. Toda a humanidade está judicialmente culpada devido a Queda de Adão. Todas as pessoas são concebidas num estado de “total depravação,” incapazes de produzir algo que agrade a Deus (Enchir. 26-27; 50).[21] Enquanto Adão no Jardim possuía ambos, uma agência moral livre e a habilidade de escolher o bem (justiça), pós-queda o homem perdeu isso. O homem em sua presente condição ainda tem a liberdade de escolha, mas perdeu a habilidade para escolher o bem. O homem não é moralmente neutro (Ori. Sin; Enchir. 30; 106; Ep. 143:6; Cidade 15:21).[22]

Sendo assim, se o homem será salvo, ele será pela obra monergística do Deus triúno, pois a salvação está enraizada no decreto eterno de Deus. A primeira Pessoa da Trindade, Deus Pai, predestina alguns para a vida eterna e outros para a condenação eterna. E mais uma vez, Agostinho estava em concordância com a Confissão de Fé de Westminster (3:3): “Pelo decreto de Deus, para a manifestação de sua glória, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna, enquanto outros preordenados para a morte eterna” (Pred.; Soul 4:16; John 48:4).[23] Além do mais, disse Agostinho, em ambos, eleição e reprovação, Deus é glorificado e justo:

Devido ao nascer de um homem todos passam à condenação, a menos que nasçam de novo em Cristo, assim como ele [Deus Pai], por dádiva misericordiosa de sua graça, os nomeou antes de morrerem para serem regenerados e predestinados para a vida eterna; enquanto que aos predestinados para a morte eterna, ele é também o mais justo recompensador de sua punição. (Soul 4:16).

Ademais, a eleição é tão certa quanto Deus é real:

Assim, aqueles são eleitos… que são chamados segundo o seu [de Deus] propósito, que são também conhecidos de antemão e predestinados. Se algum destes perecer, Deus está enganado; mas nenhum deles perece, porque Deus não comete erros. Se algum destes perecer, Deus é vencido pelo pecado humano; mas nenhum deles perece, porque Deus não é vencido por nada (Rebuke 14).

Isto nos assegura que o número dos eleitos “é tão certo que nenhum sequer pode ser adicionado ou retirado dentre eles” (Rebuke, 14).

Agostinho ensinou que a segunda Pessoa da Trindade, Deus o Filho, assumiu a Si mesmo a natureza humana (Cidade 17:16; Enchir. 34), viveu uma vida sem pecado em perfeita obediência aos mandamentos de Deus (Perf. 21) e morreu uma morte expiatória em favor de todos que o Pai elegeu para a vida eterna (Nat. Gra. 48). Dessa forma Jesus Cristo conquistou a salvação ao povo de Deus (Enchir. 33; 41; João 12:11; 41:6).

E, segundo Agostinho, a Terceira Pessoa da Trindade, Deus Espírito, é o membro da Deidade que aplica a salvação predestinada pelo Pai e conquistada pelo Filho. O Espírito Santo regenera os pecadores elitos (Enchir. 49), e produz fé neles a fim de que sejam capacitados a crerem em Cristo (Forg. Bapt. 2:52). O Espírito é também aquele membro da Deidade que sela o crente, assegurando-o em sua inviolável posição como um filho de Deus: “Pois quando nós vimos a Ele [Cristo], nós vimos também ao Pai porque através de um o outro é conhecido; e o Espírito Santo vincula, tal como fomos selados, de modo que somos capazes de descansar permanentemente na suprema e imutável Bondade” (Doct. 1:34).

Como Berkhof escreveu, para Agostinho o Espírito Santo, “é necessário, não meramente para o propósito de suprir uma deficiência, mas para a completa renovação da disposição interior do homem, de modo que ele é trazido em conformidade espiritual com a lei.”[24] Dessa forma, fé salvadora, de acordo com o bispo de Hipona, é uma dádiva de Deus (Efé 2:8-9). Não é somente uma coisa dentro do poder do homem; a vontade para crer é dádiva de Deus. Assim, é apenas pela graça mediante a fé somente que o homem é capaz de chegar a um conhecimento salvífico de Jesus Cristo.

Como afirmado por W. G. T. Shedd, no agostinianismo, “a graça é transmitida ao pecador, não porque ele crê, mas a fim de que ele possa crer; pois a fé mesma é a dádiva de Deus”.[25]

Além disso, como propriamente defendido por John Piper: “O que se segue à visão de Agostinho com respeito à graça, como sendo a alegria soberana que triunfa sobre os ‘prazeres ilícitos’, é que a vida cristã, em sua totalidade, é vista como sendo uma busca incansável pelo gozo pleno em Deus. … Em outras palavras, a chave para um viver cristão é ter sede e fome de Deus.”[26]

O próprio agostinho disse desta forma: “A alma dos homens esperará debaixo das sombras de tuas asas; serão embriagadas pela plenitude de tua casa; e das torrentes de teus favores dar-lhe-às a beber; pois em ti estão as fontes da vida, e na tua luz veremos a luz.”[27] E novamente:

Não com incerteza, mas com firme consciência eu Te amo, Ó Senhor. Com a Tua Palavra tens ferido o meu coração, e eu Te amei… Mas o que é isto que eu amo em Te amar? Não é beleza corporal, nem o esplendor do tempo, nem o brilho da luz, tão agradável aos nossos olhos, não é o doce das mais variadas melodias musicais, nem o fragrante perfume das flores, e unguento, e especiarias, nem maná e mel, nem membros agradáveis para a carne abraçar. Eu não amo estas coisas quando eu amo o meu Deus; e ainda que eu ame um certo tipo de luz, e som, e fragrância, e comida, e abraço em amar meu Deus, quem é a luz, som, fragrância, comida e abraço do meu homem interior – onde aquela luz brilha em minha alma de modo que não há lugar para contê-la, onde aqueles sons cujos trechos não se vão, onde há uma fragrância que nenhuma brisa dispersa, onde há uma comida que ninguém pode dirimí-la, e onde isso se apega a ponto de que nenhuma satisfação pode desfazer. Isto é o que eu amo quando eu amo meu Deus. (Conf. 10:6).

O pelagianismo foi condenado pela igreja no Sínodo de Cartago (416) e no Concílio de Éfeso (431). Porém, a heresia reapareceu, causando muitos estragos na fé cristã. De fato, o pelagianismo sobrevive até hoje na carapuça da teologia moderna.

É digno de nota que outra heresia surgiu no início do quinto século através do ensino de João Cassiano de Marselha (ca. 360-435), a qual fora conhecida como semi-pelagianismo. Posteriormente ela foi chamada de arminianismo, após a aparição de um de seus principais proponentes: Jacó Armínio (1560-1609).[28] Esse sistema de pensamento, o qual é tão perigoso quanto o pelagianismo, está “entre” agostinianismo e pelagianismo. Mas a ênfase recai ainda sobre o lado pelagiano, onde o homem tem a capacidade de ir em direção a Deus; por isso é chamado semi-pelagianismo ao invés de semi-agostinianismo. Semi-pelagianismo é o ensino da Igreja Católica Romana, tal como a maior parte da teologia evangélica hoje.

Como Berkhof declarou, semi-pelagianismo dá lugar “a ambos, graça divina e vontade humana como fatores cooperantes para a renovação [espiritual] do homem.” Ela afirma a corrupção humana devido a Queda, mas considera “a natureza do homem como enfraquecida ou adoecida ao invés de fatalmente vitimada pela Queda. A natureza humana caída retém um elemento da liberdade pelo fato que pode co-operar com a graça divina.” Isto significa que a regeneração se torna “o produto da articulação de ambos os fatores, mas que realmente é o homem e não Deus que inicia o trabalho.”[29] No semi-pelagianismo, a fé precede a regeneração, enquanto que no agostinianismo (i.e., Calvinismo), regeneração precede fé.

A perspectiva bíblica de Agostinho sobre a Queda e o monergismo, o trabalho gracioso de Deus na salvação dos eleitos cancela o semi-pelagianismo assim como o pelagianismo. O semi-pelagianismo foi condenado pela igreja no Concílio de Orange (529).

Os escritos anti-pelagianos de Agostinho contém algumas importantes frases teológicas em latim que ele cunhou e que foram aderidas pelo calvinismo. Elas são ainda encontradas nos escritos dos teólogos reformados hoje. Elas estão relacionadas com os quatro “estados” espirituais do homem:[30]

 Frases latinas de Agostinho

Considerando os Estados Espirituais do Homem

O homem como originalmente criado era:

Posse peccare: tem a possibilidade de pecar

Posse non peccare: tem a possibilidade de não pecar

Liberum arbitrium: tem a vontade livre

Libertas: tem a capacidade de escolher o bem (justiça)

Posse non mori: tem a possibilidade de não morrer

Desde a Queda o homem é:

Posse peccare

Liberum arbitrium

Non posse non peccare: não posso não pecar

Non posse non mori: não posso não morrer

O homem redimido antes do estado final é: Posse peccare.

Posse non peccare

Non posse non mori

Liberum arbitrium

Libertas

O homem redimido na glória é: Non posse peccare.

Liberum arbitrium

Libertas

Non posse mori: não posso morrer

Os escritos anti-pelagianos de Agostinho incluem: De peccatorum meritis et remissione et de baptismo parvulorum [Sobre os méritos e a remissão dos pecados, e sobre o batismo de crianças], De spiritu et littera [O Espírito e a letra], De natura et gratia [A natureza e a graça], De perfectione iustitiae hominis [Sobre a perfeição do homem em justiça], De gestis Pelagii [Os procedimentos de Pelágio], De gratia Christi et de peccato originali [Sobre a graça de Cristo, e sobre o pecado original], De nuptiis et concupiscientia [O casamento e a concupiscência], De natura et origine animae [Sobre a alma e sua origem], Contra duas epistulas Pelagianorum [Contra duas cartas dos pelagianos], De gratia et libero arbitrio [Sobre a graça e a vontade livre], De correptione et gratia [A correção e a graça], De praedestinatione sanctorum [Da predestinação dos santos], De dono perseverantiae [Sobre a dádiva da perseverança].

A Cidade de Deus

Quando os estudiosos discutiram a respeito as principais obras de Agostinho (algumas das quais foram mencionadas acima), duas receberam destaque: Confissões e Cidade de Deus. Como já vimos, em suas Confissões Agostinho nos deu um pouco da biografia espiritual dos primeiros trinta e três anos de sua vida. Por outro lado, com Cidade de Deus, nós temos tanto uma defesa da cosmovisão cristã quanto uma filosofia cristã da história. Em 410, após 900 anos de segurança impenetrável, Roma foi saqueada pelos góticos arianos. Este evento chocou o mundo antigo. A Roma eterna não era mais invulnerável. Ao ouvir isto, São Jerônimo, o tradutor da Vulgata Latina, escreveu: “Se Roma caiu, quem poderá estar seguro?”.[31]

Muitos que viveram naqueles dias culparam o Cristianismo pela queda de Roma. Agostinho veio para a defesa da causa cristã. Ele tomou a caneta e começou a escrever o seu livro de vinte e dois volumes: Cidade de Deus (o título que se originou do Salmo 46:4). É dito que Charlemagne (742-814), o maior dos governadores carolíngios da Europa Ocidental, gostava de ter livros sérios para ler na hora do jantar e, dentre todos, o que mais gostava era Cidade de Deus. Alguns historiadores notaram que ele pode ter visto nesse livro uma inspiração para o império cristão que ele esperava construir entre os séculos oitavo e nono.[32]

Os primeiros dez livros de Cidade de Deus foram escritos como um tratado apologético. Eles analisam Roma e o paganismo romano (tão bem quanto qualquer outro falso sistema filosófico) que ameaçaram oprimir a fé cristã no quinto século. Nesses capítulos, comentou Roberts, Agostinho explanou que Roma caiu, como ocorreu com todos os outros impérios pagãos, devido ao juízo soberano de Deus por sua corrupção moral: “A idéia de uma ‘Roma eterna’ foi um mito idólatra. Os impérios são amostras do orgulho humano preenchidos com as sementes da auto-destruição. Roma não foi uma exceção. Seu desmoronamento não foi culpa do Cristianismo.[33]

Os doze volumes restantes apresentam uma filosofia da história, demonstrando claramente que desde a Queda do homem em Gênesis 3 tem havido duas cidades ou reinos neste mundo: a cidade de Deus e a cidade do homem. Esses dois reinos existem lado a lado no mundo, e estão envolvidos entre si numa contínua guerra espiritual. Essas “duas cidades,” escreveu Agostinho, “são formadas por dois amores: a cidade terrena pelo amor próprio… e a celestial pelo amor a Deus… as glórias passadas em si, o último no Senhor. … Uma cidade é constituída por aqueles que desejam viver segundo a carne, a outra pelos que desejam viver segundo o Espírito” (Cidade 14:28).

Além disso, desde os tempos de Caim (um membro da cidade dos homens), que matou seu irmão Abel (um membro da cidade de Deus), o mundo tem perseguido a igreja. E será assim até a segunda vinda de Cristo. Nesse dia os filhos de Deus (aqueles que pertencem à cidade de Deus) serão completamente vindicados. E aqueles que pertencem à cidade dos homens receberão sua punição eterna.

Cidade de Deus salienta que a história é linear, e não circular. O ensino bíblico que Cristo morreu “uma vez” pelos pecados de seu povo nos assegura que Deus tem um plano que está presentemente no processo de ser executado no tempo-espaço da história. Somente a perspectiva cristã da história nos dá esperança. Secular, filosofias circular, com seus conceitos inatos de repetição sem sentido, que apenas guiam ao desespero. O otimismo Amilenista de Agostinho[34] transparece ao longo de todo o livro. O reino de Deus, que está presentemente no era milenar, está se movendo progressiva e inexoravelmente em direção ao seu descanso eterno final no reino de glória.

Ao considerar a história da filosofia de Agostinho, Warfield escreveu:

Por isso a igreja está estabelecida contra o mundo como o novo reino de Deus no qual o pecado humano encontra restauração e em seu gradual crescimento nós observamos a raça humana alcançando aquilo que originalmente seria o seu fim destinado. O tempo está para vir quando o reino de Deus se espalhará pela terra, e quando esse tempo chegar, tendo as anormalidades sido curadas, o conhecimento normal de Deus vai se afirmar por toda a raça humana redimida.[35]

O amor de Agostinho pelo Deus triúno da Escritura está evidente em todos os seus escritos. Em sua Sobre a Doutrina Cristã, por exemplo, ele comentou que “cada homem deve ser amado como um homem por causa de Deus; mas Deus é para ser amado por sua própria causa. E se deus é para ser amado mais do que qualquer homem, cada homem deve amar a Deus mais do que a si mesmo” (Doct. 27). Mas talvez não haja um lugar em que se evidencie mais o zelo norte-africano pela glória de Deus e a expansão de seu reino do que no parágrafo final de Cidade de Deus:

E agora, penso que expus o meu débito pela ajuda de Deus pela realização desta grande obra. Ela pode ter sido exaustiva demais para alguns, de menos para outros. Para ambos, eu peço perdão. Porém, para aqueles a quem é justo o suficiente, eu faço este pedido: que eles não me agradeçam, mas se unam comigo na gratidão a Deus. Amém. Amém (Cidade 22:30).


[1]  Clyde L. Manschreck, A History of Christianity (Englewood Cliff, N.J.: Prentice-Hall, 1962), 81.
[2] Benjamin B. Warfield, Calvin and Augustine (Philadelphia: Presbyterian and Reformed, 1956), 369–83.
[3] Citado em Warfield, Calvin and Augustine, 375–76.
[4] Citado em Warfield, Calvin and Augustine, 382–83.
[5] Ver Rousas J. Rushdoony, The One and the Many (Fairfax: Thoburn, 1978), 2n.
[6] Rushdoony, The One and the Many, 16. Ver também Richard E. Bacon, “Two Essays,” uma análise de Lord God of Truth, por Gordon H. Clark, e Concerning the Teacher, por Aurélio Agostinho (Hobbs, N.M.: The Trinity Foundation, 1994), em The Blue Banner (Março & Abril, 1995), 13–15.
[7] Ver Ronald H. Nash, The Word of God and the Mind of Man (Grand Rapids: Zondervan, 1982), caps. 6 e 8.
[8] J. Kevin Coyle, “Anti-Manichaean Works,” in Ages, 39.
[9] Dioclesiano (245–313) foi o imperador ou co-imperador de 284–313. Sua mais cruel perseguição aos cristãos foi entre 303–305.
[10] V. L. Walter, “Donatismo,” EDT, 329–330.
[11] Robert A. Markus, “Donatus, Donatismo,” Eras, 284–287.
[12] Peter Brown, Augustine of Hippo (Berkeley: University of California Press, 1967), 213.
[13] Frank C. Roberts, To All Generations (Grand Rapids: Bible Way, 1981), 63.
[14]  Philip Schaff, History of the Christian Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1987 [1910]), 3:360ff.
[15]  Schaff, History of the Christian Church, 3:363–365; Roberts, To All Generations, 63; Wright, “Augustine,” NDT, 59.
[16]  Schaff, History of the Christian Church, 3:369–70.
[17]  Wright, “Augustine,” NDT, 59.
[18]  R. C. Sproul, “Augustine and Pelagius,” Tabletalk (Orlando, Fla.: June, 1996).
[19]  Piper, The Legacy of Sovereign Joy (Wheaton, Ill.: Crossway, 2000),19; a famosa oração de Agostinho é encontrada em Conf. 10:29.
[20]  Berkhof, The History of Christian Doctrines, 132–133; Schaff, History of the Christian Church, 3:783–815; Roberts, To All Generations, 64; David F. Wright, “Pelagianism,” NDT, 499–501.
[21]  Berkhof, The History of Christian Doctrines, 134–135.
[22]  Gordon H. Clark, The Biblical Doctrine of Man (Jefferson, Mary.: Trinity Foundation, 1984), 62–77.
[23]  Agostinho ensinou que o número dos predestinados para a vida eterna é igual ao número dos anjos caídos (Enchir. 29). Em outros termos, nas palavras de Norman Geisler, “o predestinado ocupa o lugar dos anjos caídos”; ver Norman L. Geisler, ed., What Augustine Says (Grand Rapids: Baker, 1982), 127.
[24]  Berkhof, The History of Christian Doctrines, 135.
[25]  Citado em Berkhof, The History of Christian Doctrines, 135.
[26]  Piper, O Legado da Alegria Soberana,  63.
[27]  Citado por Piper, O Legado da Alegria Soberana, 63.
[28]  G. A. Chan, “Five Points,” The Trinity Review (Trinity Foundation, February, 2001).
[29]  Berkhof, The History of Christian Doctrines, 138.
[30]  Para maiores informações sobre isso, ver Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms (Grand Rapids: Baker, 1985), sob as frases latinas apropriadas.
[31]  Citado em Piper, O Legado da Alegria Soberana, 43.
[32]  Edward R. Hardy, Jr., “The City of God,” in Companion, 257.
[33]  Roberts, To All Generations, 65.
[34]  O termo “Amilenialismo” é aqui usado anacronisticamente, pois ele não começou a ser utilizado como um termo escatológico isolado antes do final do século dezenove e início do vinte, memo que o ensino amilenista tenha existido por séculos. Veja Keis A. Mathison, Postmillennialism: An Eschatology of Hope (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 1999), 29–30, 252.
[35]  Warfield, Calvin and Augustine, 477.
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Tipologia Bíblica

Sobre Tipologia Bíblica (TB), uma reflexão: Brasileiros, em especial, precisam de cuidado redobrado para não serem seduzidos pelo exagero metafórico. Isto se deve, um pouco, ao “solo” afro-mágico bem fértil em seus super-espiritualismos! E também, e isto é de cunho geral, pelo fator temporalidade, isto é, por se viver numa época (Pós-modernidade) relativista, existencialista, pluralista, ilogicista e mistificada! Desse modo, a regra é vigilância! Suspeite das alegorias e simbolismos que se atolam num tenebroso “esoterismo gospel”. Mas, cuidado também para não abandonar os simbolismos quando eles são necessários, principalmente na interpretação das profecias e do livro de Apocalipse. Que não haja desleixo no estudo bíblico, especialmente no que se refere à hermenêutica! Que abandonem as fábulas e trilhem o caminho seguro da exegese para não fazer o texto bíblico dizer tanta coisa… que Deus não diz!

SLIDES EM POWERPOINT

A 1a versão dos slides foi editada entre os meses de março e abril de 2010. A 2a versão é de abril de 2012.

TEXTOS

BIBLIOGRAFIA

BERKHOF, Louis. Princípios de interpretação bíblica.

Os livros de tipologia bíblica são livros de hermenêutica, pois lidam com a interpretação da Bíblia. Louis Berkhof, erudito biblista do seculo XIX, nos fornece as bases fundamentais para a interpretação teológica. Num dos capítulos da obra “Princípios de Interpretação Bíblica”, Bekhof norteia os elementos para a compreensão da simbologia e tipologia bíblica. Dentre todos os livros que alistarei abaixo, esse lida com conceitos preliminares, pois o campo dele é maior, a hermenêutica como um todo.

MELO, Joel Leitão. Sombras, Tipos e Mistérios da Bíblia.

Joel Leitão de Melo apresenta nesse livro muitos elementos importantes para o estudo tipológico. Nos trechos em que trata especificamente da tipologia é apresentada muitas referências bíblicas, apesar de muitas delas não seguirem as melhores pressuposições tipológicas. Além da questão tipológica, os pontos simbólicos, básicos no estudo dos tipos bíblicos, são destacados. Há momentos, porém, onde Melo ultrapassa os limites da interpretação teológica e estabelece pontos que vão além do que nos é recomendado mediante uma prudente hermenêutica. Não obstante, recomendo a leitura desse livro, apesar de que os cuidados necessários sempre devem ser tomados a fim de evitarmos os deslizes, chistes, dispersões que incorram em interpretações ilícitas e alegóricas (Clique no livro para realizar download).

HABERSHON, Ada. Manual de tipologia bíblica.

Na capa do livro de Ada Habershon está um comentário do professor Luiz Sayão que sintetiza o valor da obra: “O estudo de tipologia bíblica teve grande impacto na história da interpretação das Escrituras, principalmente no contexto da igreja primitiva. Desprezado pela alta crítica, o tópico volta à cena hoje, inclusive no contexto teológico que transcende os limites evangelicais. A obra de Ada Habershon é um clássico da matéria. Embora escrita há cerca de cem anos, permanece indispensável a todo estudioso do assunto”.

 

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Que prosperidade é essa?

Um dos fenômenos mais interessantes da Modernidade são as noções ou perspectivas de prosperidade das teologias afro-abrasileiradas, as quais não passaram de uma reaparição infeliz e um jeito desastrado de se fazer pior e mais pecaminoso do que um século atrás fizeram aqueles “protestantes de segunda-classe da terra do tio Sam“, os quais acabaram por serem imortalizados pelo sociólogo alemão Max Weber em seu clássico “A ética protestante e o espírito do capitalismo” (1905).

Quando Weber conheceu os Estados Unidos e ficou encantado com aquele capitalismo, que na época não tinha capital, mas que já funcionava movido por um poderoso sistema cristão de “segunda”, ou seja, através de protestantes que mutilaram a glória de Deus pela do money, de maneira “apocalíptica”, mas também bem sinalizada para um notável sociólogo, Weber viu a nação americana como a super-potência que se deslocava por meio de capitalismo e vocação cristã.

Hoje, no entanto, como uma caricatura daquele sistema cristão-capitalista, evangélicos vão aos cultos com suas melhores roupinhas, suas cobiças por riqueza e bem orgulhosos, pois se apresentam com o seu “melhor” para Deus, achando que o “melhor” são as suas exterioridades. Enganam-se da mesma forma que aqueles que não viram que o próprio Deus em Cristo não possuía beleza alguma para que o desejassem.

Desconsiderando a pompa católico-medieval, pois também esta cravou que o fiel deveria abdicar das riquezas no presente para uma glória no porvir, não posso ignorar o fato que os velhos erros que tal deformação do Protestantismo originou, estão intermitentemente se repetindo em suas mais obscenas configurações no atual cenário religioso brasileiro. O pior é que eles escoam do Norte bem piorados, se encontram em solo enfeitiçado, cheio de afro-magia e incorporam o Exú Mamón, tornando a velha catástrofe protestante americana ainda mais grotesta aqui e agora. Se um dia Weber notou que aquele medíocre Protestantismo americano alavancou os valores do trabalho como sinal e anúncio da eleição e predileção divina, esse mesmo fenômeno, piorado, sem trabalho, com ignorância, sem Bíblia, sem ética, com picaretas, só prospera mesmo é no bolso dos crentinos televisionados, corruptos, ogros que não estão apenas (mas também) na política, e lavam muito bem seu numerário em templos que não pagam impostos, mas que sabem arrancar uma super inflacionada tributação de seus indulgentes.

Não pensemos que Deus deseja que a tua riqueza sinalize alguma coisa que não o serviço ao Reino! Nem sempre a ausência de riqueza sinaliza reprovação divina! Não pense que o capitalismo do Protestantismo americano é pior que o lixo do capitalismo neopentecostal brasileiro de nossos dias, que usa o shampoo da avareza, se ensaboa na ignorância e te deixa com um cheirinho de “grana”! Queres prosperidade financeira? Trabalhe! Queres ficar rico? Louco! Nesta noite pedirão a tua alma!

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Um texto referente à Aliança da Criação

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Olha quem eu peguei com a mão na massa (ou na lishia) na casa do vô da Amanda!! Não pude resistir à tentação de postar!

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Agostinho, vida e legado 3

Uma tradução da obra de Gary Crampton

Aurélio Agostinho[1] nasceu em 13 de Novembro de 354 em Tagaste, Norte da África (atualmente Souk Ahras, Algéria). Seu pai, Patricius, não era cristão naquele tempo.[2] No entanto, Mônica, sua mãe, era cristã.[3] Ela ensinou-lhe os princípios fundamentais do Cristianismo desde os seus primeiros anos. Mais tarde, Agostinho comentou que nunca conseguiu se desvencilhar completamente desses ensinos em sua mente. Na soberania e providência divina foi à educação de fé de Mônica e as suas persistentes orações por seu filho pródigo que eventualmente guiaram a conversão de Agostinho em 386. Na Páscoa de 387 ele recebeu o sacramento do batismo (Conf. 9:6).

Agostinho não foi batizado como um infante (Conf. 1:11:17-18) devido a dois fatores: Primeiro, o desinteresse de seu pai; e segundo, o desejo de Mônica de que os pecados de seu jovem filho não o perseguissem depois da purificação. Tinham alguns na igreja primitiva que esperavam alcançar a idade adulta para se batizarem a fim de que todos os seus pecados da juventude fossem removidos no ato do batismo.[4] Esta antiga doutrina do batismo regenerador ainda está em vigor na Igreja Católica Romana. De fato, o próprio Agostinho sustentou uma forma modificada desse ensino (Ench., 43, 52, 119). Por exemplo, em suas Confissões, ele asseverou que foi no momento do seu batismo em água que recebeu a segurança do perdão de pecados (Conf. 9:6).

Nosso renomado santo escreveu suas Confissões depois que se tornou bispo de Hipona em 396. O título dessa obra foi extraído do Salmo 32:5. Jaroslav Pelikan afirma que “se Agostinho tivesse escrito apenas Confissões, ele ainda assim teria que figurar na lista dos maiores escritores e das grandes obras, o que pode ser notado pelo fluxo constante de cuidadosas edições críticas e traduções modernas dessa obra” (Ages, xiii). Agostinho nos deixou um pouco de sua autobiografia espiritual dos primeiros trinta e três anos de sua vida. O propósito dos “treze livros de minhas Confissões,” disse Agostinho, é o de “adorar o justo e bondoso Deus pelos meus atos bons e maus, e aumentar o entendimento e as afeições dos homens por Ele” (Retr. 2:32). Isto fica explícito bem no início do livro, onde lemos:

Grande és Tu, Senhor, e grande é o Teu poder, e a Tua sabedoria não tem fim. E o homem, como parte de Tua criação, deseja Te adorar – homem, que carrega sobre si a sua mortalidade, que testifica o seu pecado e ainda o testemunho de que Tu “resistes ao soberbo”, – Todavia, esta parte de Tua criação anseia Te adorar. Tu que nos leva a deleitar-nos em Te adorar; pois Tu nos tens formado para Ti e a nossa alma fica inquieta enquanto não repousa em Ti. (Conf. 1:1)

Utilizando as Confissões como nosso guia primário, tendo também como fonte a obra Agostinho de Hipona de Peter Brown, abordarei de início a peregrinação espiritual de Agostinho.[5] A partir de então, observaremos de modo global as suas obras e ensinos.

O Início

Os pais de Agostinho desejavam que seu filho precoce fosse educado na melhor escola disponível (Conf. 2:3:5). Até mesmo o casamento com uma “digna” esposa deveria ser adiado para depois da conclusão de seus estudos (Conf. 2:3:8). Assim, após receber rigoroso treinamento em Tagaste durante os seus primeiros dias, quando Agostinho atingiu a idade de onze anos foi enviado para Madaura (onde hoje é a Algéria) para mais cinco anos de estudos avançados. Em Madaura ele adquiriu amplo conhecimento dos poetas, oradores e línguas, particularmente o Latim. Curiosamente, Agostinho nunca foi um mestre no Grego, nem mesmo aprendeu o Hebraico (Conf. 11:3).

De Madaura Agostinho foi para Cartago para mais estudos (371-374). Lá, aos dezessete anos, ele apropriou-se de uma concubina anônima[6], a qual se tornaria o amor de sua vida.[7] Naqueles dias isso era comumente aceito e legitimado na prática – não apenas no ambiente civil, mas também na igreja[8] – para alguém que vive com uma amante até que conseguisse o direito de torná-la sua esposa. Neste ponto Agostinho estava seguindo os costumes pecaminosos de seus dias. Um ano mais tarde no seu aniversário de dezoito anos, Agostinho e sua concubina tiveram um filho chamado Adeodatus (“dádiva de Deus”).

Enquanto ainda estava em Cartago, Agostinho, aos 19 anos, descobriu a disciplina da filosofia através da leitura de Hortensius de Cícero (também conhecido como “Sobre a Filosofia”). O precoce jovem que sempre tivera um zelo pelo conhecimento era agora consumido por isso. Sobre Hortensius, ele disse, “inflamou-me” (Conf. 3:4).

Digno de nota é o fato de que mesmo depois de sua conversão à fé cristã, Agostinho continuou acreditando que era proveitoso estudar os escritos de não-cristãos. Por exemplo, em sua Cidade de Deus ele falou sobre o talento preponderante tal como em Aristóteles, Plotino e Platão. Ele comentou particularmente que “aqueles filósofos platonistas excederam a todos os outros em reputação e autoridade apenas porque eram os mais próximos da verdade que os demais, ainda que estivessem a uma longa distância do caminho” (City 8:5-12; 11:5).

Agostinho reconheceu que Deus deu uma medida de entendimento a todos os homens, e que os cristãos também podem aprender com os pensadores não-cristãos. Todos estes estudos, porém, devem ser feitos com grande cuidado para não “caírem no erro”. E ainda, disse ele, todo estudo deve ser analisado à luz do ensino das Escrituras, pois apenas a Bíblia é a inspirada, infalível e inerrante Palavra de Deus (Enchir. 8:16-17; Epp. 82:1:3).

Olhando a sua vida regressa a partir da conversão de sua alma, Agostinho falou daqueles tempos como sendo de inquietude. Embora não tenha percebido isso, ele necessitava de um Salvador. Ele era o filho pródigo da parábola de Jesus (Lucas 15:11-32), um alheio à sua formação cristã. Como um garotinho levado, Agostinho estava maquinando o mal. Aos dezesseis anos, ele rouba pêras do quintal do vizinho, embora não gostasse delas. Ele pecava, e confessava, simplesmente pelo prazer de pecar:

Quem pode desfazer esse nó complicado? Eu odeio refletir sobre isso. Eu odeio analisar isso. Eu quero a Ti [Deus]… Em Ti é perfeito o descanso e a vida não muda… [Mas] Eu afundo longe de Ti, Ó meu Deus, e Eu vago distante de Ti, minha estadia, na minha juventude, tornou-se para mim mesmo uma terra infrutífera. (Conf. 2:10)

O filósofo W. T. Jones em seu viés anticristão sugeriu que o incidente da árvore de pêra de Agostinho não era nada mais do que um “exagero neurótico de culpa e pecado num descompasso doentio”. No entanto, quando experienciou a regeneração, Agostinho viu o pecado da forma como ele realmente é, uma afronta à santidade de Deus, enquanto que Jones apenas o via como uma forma de “descompasso doentio”.[9]

A Atração do Maniqueísmo

Em Cartago Agostinho foi atraído pelo ensino dos maniqueístas (Uma seita de ascetas persas materialistas). Neste momento de sua vida havia duas coisas em particular que o levaram a rejeitar as Escrituras cristãs. (1) O problema do mal; e (2) as afirmações antropomórficas em relação a Deus. Supostamente, os maniqueístas respondiam ambas as questões.

O problema de Agostinho com relação ao mal se devia principalmente a sua própria tendência de pecar. Ele tinha que lidar com uma terrível batalha interior: “Eu era jogado para lá e para cá,” ele escreveu, “e gastou, e derramou, e ferveu em minhas fornicações” (Conf. 2:2). Este problema “me cansou e me levou para os braços dos hereges,” i.e., os maniqueístas (Free 1:2:4).

A solução do maniqueísmo para o problema do mal eram suas crenças num radical dualismo. Mani, que fundou esta religião gnóstica no terceiro século, declarou-se o prometido “Paracleto[10] e o maior de todos os profetas. Ele ensinou que havia dois absolutos, independentes e co-eternos princípios ou deuses: um era bom (luz) e o outro mal (trevas). Por serem ambas as divindades absolutas, independentes e co-eternas, nenhuma delas é capaz de vencer a outra. Elas devem existir juntas no decorrer de toda a eternidade.[11] O homem, por isso, tem uma desculpa legítima para seu pecado; ele não é responsável por ele. Como afirmou Agostinho: “Por que ainda me parecia ‘que não éramos nós que pecamos, mas outra natureza que pecava em nós.” (Conf. 5:10)

Em relação ao antropomorfismo na Escritura, os maniqueístas explicavam o Deus das Escrituras por meio de uma forma antiga de alta crítica. Eles tomavam literalmente as afirmações antropomórficas concernentes a Deus. Se a Bíblia diz que Deus tem olhos (Sal 32:8), ouvidos (Sal 54:2), braços (Isa 52:10) e assim por diante, então ele deve ter um corpo limitado. Os maniqueístas também negavam que Cristo tomou sobre si mesmo uma genuína natureza humana. Na mentalidade gnóstica, a materialidade é necessariamente má. Agostinho escreveu: “parecia-me a coisa mais incoerente crer que Tu [Deus] tinhas a forma humana” (Conf. 5:10).

Sendo assim, os maniqueístas concluíram que o Deus da Bíblia não pode verdadeiramente ser Deus. Além disso, eles (erroneamente) ensinaram que o Antigo Testamento afirmou certo número de atividades pecaminosas (p.e., poligamia, a leviandade de Sansão, e outras). Esse livro, eles afirmaram, não pode ser reconhecido como Palavra de Deus. Além do mais, Mani e seus seguidores desfizeram a noção de “fé,” particularmente tal como está definida no Cristianismo. “Fé”, eles sustentaram, é contrária a “razão”. Nessa época, Agostinho não era capaz de combater a esses falsos ensinos (Conf. 5:10).

Entretanto, nas disciplinas de filosofia, matemática e astronomia, os maniqueístas deixaram a mente indagadora de Agostinho sem resposta em muitas questões. Até mesmo seu principal mestre, Fausto (nascido em 340), foi incapaz de esclarecer suas dúvidas. Agostinho ficou desiludido com o Maniqueísmo e mais tarde expôs suas falácias. Por exemplo, ele devotou a primeira parte do seu De utilitate credendi [Sobre o benefício de crer] (c. 391) para refutar os ataques maniqueístas ao Antigo Testamento. E em seu Contra Faustum [Manichaeum] (c. 398), ele desmascarou os falsos ensinos de Fausto.

Durante todo esse período Mônica seguiu pranteando por seu filho pródigo. Numa visita a Ambrósio, bispo de Milão, ele lhe disse: “Deixe-o [Agostinho] onde está por um tempo, limite-se a orar por ele a Deus; ele descobrirá por si mesmo, através da leitura, o erro e toda a impiedade dessa doutrina.” Depois, exagerou o bispo: “Vá e siga teu caminho, Deus te abençoará, pois não é possível que possa perecer o filho de tantas lágrimas [das de Mônica]” (Conf. 3:12).[12]

Primeiras Reflexões Filosóficas

Entre os anos 375-383 Agostinho trabalhou como professor de retórica em Tagaste (375) e Cartago (376-383). Depois disso ele se mudou para Roma para lecionar por mais um ano. Foi lá que ele se deparou com a filosofia da Nova Academia: Ceticismo. Os céticos entendem que ninguém pode chegar ao conhecimento da verdade. Ainda que seduzido inicialmente por esta filosofia, Agostinho nunca abraçou-a completamente. Muitos anos depois (386) ele expôs a inconsistência racional do Ceticismo em sua Contra Academicos.

Em seus escritos, por exemplo, Agostinho afirmou que a imutabilidade das leis da lógica e das fórmulas matemáticas específicas (p.e., que 7 + 3 = 10) são suficientes para minar a noção cética de que o conhecimento não é atingível. Além disso, ele escreveu que mesmo que alguém diga que duvide de algo ele está ainda assim afirmando uma forma de conhecimento. Se alguém não tem conhecimento sobre um assunto como poderia duvidar da crença de alguém? Em acréscimo, Agostinho asseverou que o Ceticismo se contradiz ao afirmar que nada pode ser conhecido, pois se nada pode ser conhecido, então não podemos saber se não sabemos nada.[13]

A famosa afirmação de Agostinho dubito ergo sum (“duvido, logo existo”) vem de sua controvérsia com os acadêmicos. Agostinho disse que para duvidar é necessário alguém que duvide. Mesmo que alguém duvide que exista, ainda assim ele está duvidando, e por isso, existindo a fim de duvidar. Então, algum conhecimento parece ser claramente necessário. Gordon Clark sustentou que Agostinho usou este argumento num estilo ad hominem (“para o homem”) “para forçar a admissão de pelo menos um caso de intuição intelectual,” com relação ao cético. A partir da aceitação desse ponto o cético pode observar o erro de sua crença de que nada pode ser conhecido. Por isso, o uso que Agostinho faz do argumento dubito não deve ser considerado como uma “prova” racional da existência de Deus. Ao invés disso, é meramente uma parte de um reductio ad absurdum (i.e., redução ao absurdo), uma metodologia apologética que procura mostrar a futilidade dos falsos sistemas de pensamento.[14]

A Influência de Ambrósio

Finalmente, em 384, Agostinho veio a Milão como um professor de retórica. Ali ele esteve sob o ensino e o ministério de pregação de Ambrósio (ca. 337-97), o qual desempenhou um papel fundamental para a conversão de Agostinho. Ambrósio explanou as Escrituras para seu jovem pupilo Agostinho (que era quatorze anos mais jovem) de um modo que ele nunca tinha feito antes. Agostinho mais tarde escreveu que no princípio (como um retórico), ele estava impressionado pelo “quão habilmente ele [Ambrósio] falava”; mas gradualmente ficou mais impressionado pelo “quão verdadeiramente ele falava” (Conf. 5:14). “Para Milão eu vim,” Agostinho escreveu, “para o bispo Ambrósio… Seu [Deus] servo devoto… Para ele eu era desconhecidamente conduzido por Ti, de modo que por ele eu pudesse intencionalmente ser guiado para Ti” (Conf. 5:13).

Ambrósio mostrou a Agostinho que ele estava lendo o Antigo Testamento com um exagerado literalismo. A Bíblia não ensina o que os heréticos maniqueístas sustentam. O Deus das Escrituras não é para ser pensado em termos corporais. “Deus é Espírito” (João 4:24), e “um espírito não tem carne e osso” (Lucas 24:39). Além do mais, Ambrósio argüiu que apesar da Bíblia testemunhar os atos pecaminosos dos homens, tais como a poligamia e a promiscuidade sexual, ela não tolera esses atos; mas, de fato, os condena.

Ambrósio também ensinou Agostinho que Deus não nos chama à fé sem razão; nem que ele endossa a razão sem fé. Ao invés disso, a partir de um teísmo bíblico, Deus nos chama para raciocinar por meio da fé (i.e., Escritura). Para se argumentar propriamente é preciso ter antes de tudo um ponto axiomático sobre o qual todo o argumento possa se fundamentar. E na cosmovisão cristã o axioma é que a Bíblia é a inspirada, infalível e inerrante Palavra de Deus. Consequentemente, a autoridade da Escritura é estabelecida como o ponto de partida que precede a razão. Ela complementa a razão, mas não a suplanta (Ep. 120). Agostinho mais tarde escreveu: “A fé que busca encontra o entendimento: por isso o profeta diz: ‘A menos que creias não entenderás’” (Trinity 15:2).

Esta citação bíblica de Isaías 7:14 da Septuaginta (a tradução grega do hebraico do Antigo Testamento) é o verso sobre o qual Agostinho baseou seu bem conhecido dictum: credo ut intelligam, “Eu creio para que eu possa entender.” Alguém deve ser capaz de raciocinar para entender o ensino da Escritura. Cristianismo não é uma fé cega, mas uma fé racional.[15] Ao explanar sobre a relação entre fé (revelação) e razão (lógica), Agostinho escreveu:

Por esta razão, se for encontrado algo que contradiz a autoridade das Escrituras sagradas, isto se apresenta apenas como um engano decorrente de sua semelhança à verdade, pois, por mais que sejam agudas, tais deduções não podem ser tidas como verdadeiras. Por outro lado, se contra o mais evidente e confiável testemunho da razão alguém alega autoridade tal qual a das Santas Escrituras, quem faz isso o faz mediante equívoco interpretativo, e se coloca contra a verdade e o real significado da Escritura, da qual tem falhado em descobrir o seu sentido por apresentar a própria opinião. Ele alega não o que está nas Escrituras, mas o que ele acha por si mesmo segundo as suas próprias interpretações (Ep. 143:7).

E assim para Agostinho, disse Warfield, “fé e razão nunca são concebidas como antagônicas, contraditórias, mas sempre como co-adjuvantes, cooperando para um fim comum.”[16] Porém a fé na Escritura é aquela sobre a qual tudo se baseia. Uma vez convertido, Agostinho, que confiou plenamente na Bíblia como a infalível e inerrante Palavra de Deus, naturalmente acreditava em tudo o que ela ensinava (True, 24, 36; City 11.3-4).[17]

Em Milão o ainda não convertido Agostinho também se deparou com o Neoplatonismo através dos escritos antigos do filósofo egípcio Plotino (205-70). Agostinho juntamente com as Escrituras também estimou os ensinos dos neoplatonistas. Ele obteve um entendimento muito maior da transcendência de Deus e salientou que Deus não estava limitado pelo tempo e espaço. Agostinho estava aprendendo mais sobre o mundo espiritual.

Foi também em Milão que Agostinho lidou com o problema do mal. Desde que as Escrituras ensinam que Deus, que é onipotente e bondoso, tem decretado todas as coisas desde a eternidade, e se por sua soberania e providência controla todas as coisas no universo que criou, como pode existir o mal no mundo a menos que Deus seja o seu autor? Como podemos justificar as ações de Deus em meio ao mal? Esta é a questão da “teodicéia.” O termo “teodicéia” é derivado de duas palavras gregas (theos “Deus” e dike “justiça”) e desenvolve uma justificativa para a bondade e justiça de Deus à luz do mal no mundo.[18]

Primeiro, através de seus estudos sobre o Neoplatonismo (que ele nunca adotou completamente), Agostinho encontrou uma resposta à doutrina maniqueísta do dualismo.[19] Desde que Deus criou todas as coisas boas (Gen 1:31), o mal não pode ter uma existência independente. Mal é a ausência do bem (privatio boni), apenas como a escuridão é a ausência da luz. O mal, então, é parasitário, não pode existir sem o bem. Ele corrompe as coisas boas, sendo uma distorção do que é bom.

Sendo este o caso, Agostinho ponderou, Deus não é a causa eficiente (causa efficiens) do mal. Ao invés disso, o mal surgiu como uma causa deficiente (causa deficiens) na criatura humana. O mal sendo a ausência do bem mesmo no plano preordenado de Deus é o resultado do afastamento do homem aos mandamentos de Deus por um bem inferior: a vontade da criatura, do homem. Aqui está a essência do mal. Assim, ele sustentou que é o homem, não Deus, o autor do mal (Cidade de Deus, 11:9; 13:3; 14:3; Morals, 5:7).[20]

Agostinho geralmente não é bem compreendido neste ponto. Ele não estava negando que o mal é uma força poderosa no mundo e nem que Deus é a causa soberana de todas as coisas. Ele teria concordado com o ensino que mais tarde postularia a Confissão de Fé de Westminster (5:4),[21] que “a onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira Queda [de Adão] e a todos os outros pecados dos anjos e homens.” De acordo, porém, com a Confissão 5:4, Deus, como a causa primeira e soberana usa as causas secundárias, tais como os desejos pecaminosos dos homens para trazer os seus decretos soberanos: Assim, “a pecaminosidade disso procede apenas da criatura, e não de Deus, que sendo totalmente santo e justo não é e nem pode ser o autor ou o que aprova o pecado.”

Baseando-se nisso, Agostinho demonstrou apenas as causas secundárias do pecado. E a causa secundária no caso de Adão era a sua escolha por um bem menor (o desejo egoísta da criatura), ao invés do supremo bem (a vontade do Criador). A escolha por um bem menor em detrimento da vontade de Deus foi a essência do pecado. A fonte do mal pôs na criatura a vontade por si mesmo. Desta forma, foi um amor egoísta (“a perversão da vontade” do homem), ao invés do amor por Deus, que trouxe a Queda (Conf. 7:16). “Por isso, não há necessidade”, escreveu Agostinho, “no que se refere aos nossos pecados e vícios, levar o nosso Criador a injustiça de pôr a culpa sobre a natureza da carne que é boa em suas próprias peculiaridades e em seu próprio grau. Mas não é bom abandonar o bondoso Criador e viver segundo o padrão de um bem criado” (Cidade de Deus 14:5).

Agostinho estava batalhando com diversos assuntos que estavam diante dele. Agora havia tanto para falar, duas crianças brigando no ventre[22] de sua mente: Cristianismo e Paganismo. Nesse tempo, Mônica fez preparativos para um casamento para seu filho: uma moça de um lar cristão em Milão. A amante de Agostinho por quinze anos reconheceu que devia liberá-lo de suas obrigações. Conseqüentemente, ela retornou à África, deixando Agostinho e seu filho. Ela deixou Agostinho por que o amava; e ele igualmente a amava profundamente. Ele escreveu: “Minha amada sendo arrancada do meu lado como um impedimento para o meu casamento, meu coração, que fendeu por ela, foi atormentado, ferido e sangrado. E ela, deixando comigo nosso filho, voltou para a África, fazendo um voto a Ti [Deus] de nunca mais conhecer outro homem” (Conf. 6:15.

Por ter a garota que Mônica escolhera para casar com seu filho apenas doze anos, Agostinho teria que esperar dois anos para que o casamento pudesse ser consumado. Isso foi mais do que o voluptuoso jovem podia conceber. Incapaz de ficar sem uma companheira, ele foi morar com outra concubina. Durante esse tempo, enquanto lutava com suas paixões que o escravizavam, Agostinho teve contato com os ensinos um tanto que obscuros de certo monge egípcio chamado Antônio. O que mais o impressionara nesse monge foi que mesmo não possuindo uma genialidade como a sua ele era capaz de controlar suas paixões, o que não acontecia com o erudito Agostinho (Conf. 8:6).

Sua Conversão

 Agostinho percebeu que precisava de ajuda por ser um prisioneiro de suas próprias concupiscências. Certo dia, tendo meditado no jardim e clamado a Deus para ajudá-lo em seu desespero, ele ouviu a voz de uma jovem criança que cantava tolle lege (“toma e lê”). Agostinho interpretou isso como “toma e lê a Bíblia.” Quando abriu as Escrituras, o primeiro trecho que lhe veio para ler foi Romanos 13:13-14: “Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências.”

“Não quis mais ler,” disse Agostinho, “nem era mais necessário; pois, imediatamente, ao concluir a leitura de tais palavras, penetrou-me no coração uma espécie de luz serena, e todas as trevas da dúvida se dissiparam” (Conf. 8:12). Deus regenerou seu servo, e Agostinho respondeu ao chamado; ele era um homem convertido, uma nova criatura em Cristo (2 Cor. 5:17). Louvando a Deus pela sua conversão, Agostinho escreveu: “Ó Senhor, verdadeiramente eu sou vosso servo, sim, vosso servo e filho de vossa serva. Quebrastes as minhas cadeias! Eu oferecerei a Ti sacrifício de louvor.” E por causa disso “Já o meu coração estava livre de torturantes cuidados, de ambição, de ganhos, e desse revolver-se e esfregar-se na sarna das paixões… Tu [és] o meu fulgor, minha riqueza, minha salvação, Senhor, meu Deus” (Conf. 9:1). Era o ano 386 e Agostinho tinha trinta e dois anos.

Depois de renunciar a seu posto de professor de retórica, Agostinho foi para um curto período de isolamento em Cassiciacum (perto de Milão). Ele estudou as Escrituras e tirou algum tempo para conversar com Adeodatus, Mônica e alguns de seus amigos. Ele também começou a escrever. Entre alguns escritos do período, ele escreveu Contra Academicos (uma refutação do Ceticismo), De Beata Vita (um tratado sobre a felicidade tal como é apenas encontrada no triúno Deus das Escrituras), e Soliloquiorum Libri Duo (um diálogo entre Agostinho e sua Razão). Como destacou Warfield, nos anos que se seguiram pudemos ver um grande avanço da perspicácia teológica de Agostinho. Há uma remoção gradual das influências pagãs, tanto quanto o abandono do pensamento Semipelagiano (“Arminiano”). Progressivamente, Agostinho migrou em direção ao entendimento “Calvinista” das Escrituras (como melhor expresso nos padrões de Westminster). Porém mesmo nestes primeiros escritos, nós nos deparamos com alguém que já é “um pensador profundamente devotado e verdadeiramente cristão.”[23] Juntamente com seu filho convertido, Agostinho foi batizado pelo bispo Ambrósio na Páscoa de 387.[24]

Agostinho e Mônica no seu caminho de volta à África quando ela ficou doente e morreu em Óstia, Roma. Ela tinha cinqüenta e seis anos. Apenas dois dias antes os dois haviam desfrutado de um tempo maravilhoso de comunhão cristã tal como nunca haviam tido antes. Agostinho descreveu esse momento da seguinte forma:

“Falávamos a sós, muito docemente… Enquanto assim falávamos, anelantes pela Sabedoria, atingimo-la momentaneamente num ímpeto completo do nosso coração. Suspiramos e deixamos lá agarradas as primícias do nosso espírito. Voltamos ao vão ruído dos nossos lábios, onde a palavra começa e acaba” (Conf. 9:10).[25]

Mônica expressou seu último deleite diante da nova fé achada em seu filho. Agostinho pregou no funeral de sua mãe em Óstia.

Agostinho gastou um breve período de tempo em Roma onde novamente encontrou os maniqueístas. Ele escreveu dois livros em defesa do Cristianismo e em refutação ao Maniqueísmo: De moribus ecclesiae catholicae et de moribus Manichaeorum (Sobre a moral dos maniqueístas e da igreja católica).[26]

Insaciável Acadêmico

 Em 388 Agostinho e seu filho retornaram a Tagaste. Tal como João Calvino depois dele, Agostinho pretendia permanecer recluso em seus estudos. Ele tornou o seu lar uma semi-monástica comunidade. Lá ele permaneceu por três anos em isolamento, e pode dar continuidade aos seus estudos das Escrituras, escrita de livros e cartas, e discorrer com outros quanto à necessidade e racionalidade do Cristianismo. Adeodatus morreu durante esse período quando tinha apenas 16 anos.

Em 391 Agostinho viajou para Hipona (Hippo Regius)[27], uma cidade predominantemente donatista. Lá, como servia a Igreja Católica, ele foi reconhecido pelo bispo Valerius (d. 396). Esse, pela sua idade avançada não tinha mais condições de lidar com todos os seus deveres na igreja. Além disso, ele reconheceu que suas habilidades no ensino, na pregação e no debate não eram comparáveis com às de Agostinho. E por perceber que a Igreja Católica precisava de uma voz forte contra os donatistas, convidou os seus paroquianos a procurarem por um ministro para servir ali. Assim, Agostinho foi escolhido e ordenado como presbítero de Hipona. Lá ele pregou, realizou todas as suas tarefas de presbítero e ainda fundou um monastério perto da igreja, desenvolvendo também o seu ministério como escritor.

Em 395 Agostinho foi promovido a bispo auxiliar da sé em Hipona.[28] Um ano depois Valério morreu, e Agostinho se tornou o único bispo de Hipona. Como as rigorosas regras da igreja africana proíbem a remoção de bispos (exceto em casos extremos de disciplina), Agostinho permaneceu bispo de Hipona até o fim de sua vida (embora em 426 tenha indicado Heráclito como seu sucessor). Durante esse tempo Agostinho enfrentou o ensino herético dos donatistas e pelagianos, contra os quais ele escreveu extensamente. Dentre os escritos desse período podem ser citados De correctione Donatistarum (Sobre a correção dos donatistas), De peccatorum meritis et remissione (Sobre os méritos e a remissão dos pecados), e De gratia et libero arbitrio (Sobre a Graça e a Vontade Livre). A pequena Hipona ficou famosa como o grande Agostinho que se tornou o principal teólogo cristão e o filósofo da igreja no Ocidente.

Outros importantes trabalhos que Agostinho concluiu durante os trinta e quatro anos restantes de sua vida foram Confessiones [Confissões] (397-400), De baptismo [Sobre o Batismo] (400), De doctrina Christiana [Sobre a doutrina cristã] (397-426), De trinitate [Sobre a Trindade] (397-420), Enchiridion ad Laurentium, seu de fide, spe et caritate [Manual] (421), De civitate Dei [Cidade de Deus] (413-426) e Retractationes [Retratações] (426-428). Ele também escreveu grande quantidade de Cartas, Sermões e Exposições sobre os Salmos.[29]

Perto do fim da vida de Agostinho, os góticos arianos (bárbaros europeus) rodearam a cidade de Hipona. Uma vez que a destruição era iminente e sua vida corria perigo, ele foi aconselhado a fugir para outra cidade. Entretanto, preocupado com a honra de Deus mesmo depois de sua morte, Agostinho recusou tal alternativa. De modo especial, ele requisitou que os Salmos penitenciais de Davi fossem pendurados nas paredes de sua sala. Seu desejo era o de passar pelos portões do céu com esses Salmos em seus lábios, empunhando tais promessas como suas próprias. Quão bem ele entendeu a doutrina da salvação somente pela graça mediante a fé somente e através da redenção que há somente em Cristo. Ele morreu no dia 28 de agosto de 430.[30]

Como Roger Hazelton destacou, Santo Agostinho viu sua vida como uma jornada da alma rumo ao seu estado final: vida na presença de Deus. Esta foi a sua derradeira Visio Dei: a visão beatífica. A vida de um cristão é uma peregrinação, disse o bispo de Hipona; ele está sempre em marcha. Conhecer a Deus é amá-lo sinceramente, e amá-lo é buscá-lo com todas as forças do seu coração, alma e entendimento (Marcos 12:30). Agostinho foi verdadeiramente um homem “viciado em Deus”. Ele foi alguém consumido por um zelo pela glória de Deus e pelo avanço do seu reino. Ele não apenas estabeleceu as bases do pensamento cristão para todas as gerações que se seguiram após ele, mas “também marcou as diretrizes da devoção cristã a partir de seus tempos até os nossos. Sua marca sobre os caminhos da oração no Ocidente cristão não são menos profundos e duráveis do que sua monumental influência teológica.”[31]

Agostinho falou da necessidade de se manter uma forte vida devocional mediante estudo bíblico e oração. Ele reconheceu a necessidade do indivíduo “conhecer intimamente a verdade” antes de “viver por ela.” E a oração é um meio pelo qual a verdade é “infundida na alma”. “A fim de que venhamos a obter uma vida verdadeiramente abençoada, ele que é em si mesmo a Verdadeira Vida Abençoada [Cristo] nos ensinou a orar” (Ep 130:8:15). Como Paulo, a teologia de Agostinho sempre conduzia em direção à doxologia.[32]

Assim como Paulo, este grande bispo ensinou que o amor de Deus, alimentado por uma forte vida devocional, deve trabalhar na vida cristã. Dessa forma, pode ser dito de Agostinho que não apenas teve uma forte vida devocional, mas que sua vida inteira foi marcada pela devoção. Alguém que tem o amor de Deus, ele ensinou, transborda em amor pelas coisas de seu reino. “A vida inteira de um bom cristão”, ele escreveu, “é um santo desejo.” Ou, para dizer de outro modo, sugeriu John Piper, Agostinho manteve que “a chave para a vida cristã é uma sede e fome por Deus.”[33] Isto, ensinou Agostinho, era o que o Senhor disse ser a suma de toda a lei em Mateus 22:37-40.[34]

                                                                     Ministério Pastoral

 Embora St. Agostinho é melhor conhecido como um acadêmico, nós devemos lembrar que ele foi primeiro e principalmente um pastor para o povo de Deus. Joseph Bernardin ressalta isso nesta consideração:

A preeminente influência de Agostinho como teólogo e doutor da igreja é sensível em cada era e desse modo ofuscado sua grandeza como pastor, a influência daquilo que foi experienciado principalmente durante sua vida. Entretanto, o fato notável é que apesar de todo o tempo gasto com sua produção literária cujo alvo era definir a teoria de vida dentro igreja, ele mesmo viveu ativamente o que ensinou. Ele é um excelente exemplo de um grande e verdadeiro pastor de almas tal como deveria ser encontrado ao longo da história cristã. Por ter amado a Deus com todo o seu ser, tanto com seu coração e mãos quanto com sua cabeça [mente], ele amou e serviu seus companheiros. Ele conheceu suas ovelhas e foi conhecido por elas.[35]

Os comentários de Bernardin são apropriados, Agostinho tinha um verdadeiro coração para a igreja de Cristo. Ele continuamente trabalhou para a sua paz, prosperidade e pureza. Nigel Lee sumarizou o ideal do bispo norte-africano para a igreja: “Nos fundamentos – unidade! Nas coisas não essenciais – diversidade! Em todas as coisas – caridade!” [36]

Como notado anteriormente, depois de sua conversão, Agostinho buscou viver uma vida de reclusão acadêmica. Porém, na providência de Deus isso não haveria de perdurar. E, ao ser ordenado sacerdote pela Igreja Católica, é dito que ele chorou pela magnitude da responsabilidade que estava assumindo. Ele serviu por aproximadamente trinta e cinco anos e classificou seu ofício de bispo como um ofício de labor, não de honra (City 19:19).

Em suas funções de bispo, Agostinho sentou sobre a corte da igreja para ouvir disputas e estabelecer julgamentos bíblicos. Ele tinha um contínuo ministério junto aos pobres, órfãos, perseguidos, enlutados, prisioneiros, i.e., sobre aqueles que padeciam necessidades. Seu chamado exigia que viajasse pelas regiões de Hipona assistindo suas cinco igrejas estabelecidas. Em cada uma delas ele seria chamado para pregar, administrar os sacramentos, realizar cerimônias de casamento, funerais, entre outras atividades ministeriais. Seu ministério era exigente e árduo,[37] porém em todo o tempo ele permaneceu um ardente estudante das Escrituras. Ele foi igualmente fervente em suas orações por si mesmo, por seu trabalho e pelo avanço do reino de Deus. Ele particularmente acentuou a importância da oração do Pai Nosso (Sal. 86:1-2; Serm. 6-9).[38]

Quando Agostinho falou dos “sacramentos”[39], ele tão predominantemente considerou os dois sacramentos protestantes: batismo e ceia.[40] Para Agostinho os sacramentos são os sinais visíveis da graça invisível. Ele os considerou como essenciais, como um meio de graça, para a saúde e o crescimento espiritual. “Espiritualmente entendido,” ele escreveu, um sacramento “vivificará. Embora seja útil que seja visivelmente celebrado, contudo precisa ser espiritualmente entendido” (Sal. 99:8). E ainda, ele disse: “A importância destes sacramentos não pode ser exagerada, e apenas os escarnecedores os tratarão com displicência. Pois se a piedade os recomenda, negligenciá-los será uma blasfêmia.

Quando tratou do batismo, Agostinho ensinou que ele deveria ser administrado tanto aos cristãos quanto às suas crianças (Ep. 98:1-3). Entretanto, ele (erroneamente) sustentou uma modificada forma de regeneração batismal. Ele acreditava que a graça é transmitida àquele que se batiza, ainda que se trate de crianças. Ele ensinou que o batismo remove a culpa do pecado original e também todos os pecados cometidos antes de se receber a ordenança (Enchir 42-43; 66; Ep. 98:1-10). Neste sentido, o batismo é necessário para a salvação.[41] Porém, mesmo aqui Agostinho não ensinou que o “trabalho operado” é transmitido pelo elemento (água), mas pelo Espírito Santo. E ele ainda sustentou que o receptor do batismo é sempre responsável pela recepção da graça oferecida pela fé.

Infelizmente, Agostinho também sustentou muitas outras falsas doutrinas – doutrinas que a Igreja Católica Romana pratica: dar esmolas meritórias, penitência, purgatório, orações pelos mortos e a distinção entre o pecado mortal e venial (Enchir. 46, 64, 67-69, 72, 75, 110). Tais ensinos não são aceitáveis. Ainda que também deve ser lembrado que Agostinho viveu nos mais primitivos dias do (pós-apostólico) Cristianismo. Ele (com os primeiros pais da igreja) estava no processo de elaboração do próprio dogma da fé cristã.

Quanto à ceia, Agostinho a considerou como essencial para o crescimento do Cristianismo. Ela tinha que ser administrada pelo menos uma vez por semana para os crentes e suas crianças batizadas (pedocomunhão) (Serm. 174:7). Porém, ele não aderiu aquilo que posteriormente seria conhecida como a doutrina Católico Romana da transubstanciação.[42] Como Berkhof escreveu: “Enquanto que ele [Agostinho] não falou do pão e do vinho como o corpo e sangue de Cristo, ele distinguiu o sinal e a coisa significada, e não acreditou numa mudança de substância.”[43] Nós vemos isto mais claramente na obra Cidade de Deus.

Agostinho também foi um magistral apologeta. Sua Cidade de Deus é uma monumental defesa da fé cristã. Neste livro a cosmovisão cristã é brilhantemente sustentada e fortificada por um dos maiores pensadores que Deus já deu a sua igreja. Posteriormente será exposto mais sobre essa questão.

A tarefa primária do pastor, ensinou Agostinho, é a proclamação da Palavra de Deus. Philip Schaff escreveu: “Agostinho foi um insaciável pregador. Ele considerava que pregações regulares são uma parte indispensável das obrigações de um bispo.”[44] O homem que “ministra para pessoas,” ele escreveu, o faz “nos divinos sacramentos e na Palavra” (Ep. 21:3). “Nós somos ministros da Palavra, não a nossa, mas a de Deus” (Serm. 114:1). De acordo com o bispo norte-africano, pela pregação da Palavra de Deus o pastor alimenta suas ovelhas com o pão da vida.[45] Dessa forma, os pastores servem seu Senhor ao trazerem as boas novas de Cristo para seu povo. Ecoando Isaías 52:7 e Romanos 10:15 (“Quão formosos são os pés dos que anunciam o evangelho da paz e trazem as boas novas”), Agostinho afirmou que “pregadores são os pés do Senhor” (Serm. 99:13).

Muitos dos sermões de Agostinho tem sido preservados através dos séculos. Além de suas séries sobre Salmos, Evangelho de João e a Epístola de João, há aproximadamente 400 outros sermões de praticamente cada parte da Bíblia. E apesar de ter havido momentos em que Agostinho teve a tendência de se apropriar do método alegórico de interpretação das Escrituras,[46] fica explícito em sua Retractationes que em sua maturidade espiritual ele fez algumas alterações de sua abordagem exegética da Bíblia.[47]

Embora a perspectiva de Agostinho da igreja seja danificada por elementos do Catolicismo Romano, ele sustentou quatro atributos da igreja, os quais foram confessados pelos autores do Credo Niceno-Constantinopolitano (AD 381): “[Nós cremos] na igreja, una, santa, católica e apostólica.”[48] Ele definou a igreja como “a santa assembléia de todos os fiéis que são salvos,” e como a que é formada pelos “fiéis que são eleitos e justificados.”[49]

E mesmo que, como Cipriano que viveu antes dele, ele tenha sustentado que “fora da igreja não há salvação” (Bapt. 4:17:24), ao mesmo tempo, como van Bavel clarificou, Agostinho afirmou “que há salvação para o trabalhador, para a profetiza, para o bom ladrão, para os mártires não batizados, para Cornelius, para os catecumenos que morreram antes de receber o batismo, para católicos que foram excomungados.”[50] Talvez seja mais correto afirmar que Agostinho ensinara como mais tarde postulou a Confissão de Fé de Westminster (25:2), que fora da greja invisível “não há possibilidades ordinárias [sob circunstâncias normais] de salvação”, quando nós consideramos a doutrina da salvação como um todo – tanto a santificação como a justificação.[51] Esta parece ser a opinião de B.B.Warfield, que escreveu:

A doutrina agostiniana da igreja é um tema tão fascinante que por vezes é difícil tocar sem ser transportado para além dos requerimentos de nosso presente propósito. Talvez já tenha sido dito o suficiente para indicar o lugar que a igreja ocupa na doutrina agostiniana da autoridade. Na sua condição de fraqueza resultante do pecado na raça humana a igreja é a mediadora entre a revelação divina apresentada nas Sagradas Escrituras e a obscurecida mente humana, tornando-se assim uma pedagoga que guia os homens à verdade. É na igreja que a verdade é conhecida, a qual não diz respeito apenas ao fato de que é nas mãos dela que as Escrituras são encontradas, e na qual toda a verdade de Deus está infalivelmente depositada, mas também se refere ao fato que é apenas na igreja que os mistérios da fé revelados pelas Escrituras são compreendidos: pois apenas pela participação das graças encontradas nela que os homens podem esperar alcançar a visão que é a posse exclusiva dos santos. O verdadeiro conhecimento de Deus pertence à comunhão do seu povo, e fora dessa comunhão não há como alcançá-lo.[52]

[1]O primeiro (ou pessoal) nome “Aurélio” não se encontra nos próprios escritos de Agostinho, mas é comprovado por seus contemporâneos (Warfield, Calvin and Augustine, 305).
[2]Acredita-se que Patricius mais tarde se converteu e se batizou na fé Cristã, em 370, um ano antes de sua morte. (Augustine, Conf. 9:9; John Piper,The Legacy of Sovereign Joy [Wheaton, Ill.: Crossway, 2000], 46.
[3] Mais tarde a Igreja Católica Romana canonizou Mônica como Santa Mônica, a Padroeira das Associações das Mães Cristãs.
[4] Roy W. Battenhouse, “The Life of St. Augustine,” in Companion, 19–20, 56.
[5] Peter Brown, Augustine of Hippo (Berkeley: University of California Press,1967).
[6] Joseph C. Morecraft, III, para proteger o anonimato desta não nomeada mulher, Agostinho usa as palavras unam habitum, que é uma frase em latim para “Eu vivi com apenas uma mulher.” Morecraft, “Augustine of Hippo,” The New Southern Presbyterian Review, Fall 2006: 79.
[7] Mais tarde, quando Agostinho finalmente se separou de sua amada concubina, isso o feriu mortalmente. Ele disse que seu coração “foi atormentado, rasgado e sangrado” (Conf. 6:15).
[8] Veja Warfield, Calvin and Augustine, 353, 356.
[9] Citado em Gordon H. Clark, “Augustine of Hippo,” The Encyclopedia of Christianity,ed. by E. H. Palmer (Wilmington: National Foundation for Christian Education,1964), I:489.
[10] “Paracleto” é a palavra grega para “ajudador.” As profecias de Cristo relacionadas com a vinda do paracleto se encontram em João 14:16, 26; 15:26.
[11] W. A. Hoeffecker, “Manichaenism,” EDT, 683–684.
[12] A afirmação de Ambrósio é uma deturpação da Escritura. As lágrimas de alguém não salvam ninguém. Muitos pais têm sofrido a perda spiritual de seus filhos mesmo depois de terem feito muitas súplicas e derramado muitas lágrimas em prol da salvação deles. A Escritura é clara em seu ensino de que temos que orar pelo perdido (1 Tim 2:1–4). Porém Deus é absolutamente soberano quanto à salvação (Efé 1:3–14). Paulo disse: “Ele tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rom 9:18).
[13]Gordon H. Clark, Thales to Dewey (Unicoi, Tenn.: Trinity 14 Foundation, 2000 [rep. 1957]), 177–181; Norman L. Geisler e Paul D. Feinberg, Introduction to Philosophy: A Christian Perspective (Grand Rapids: Baker, 1980), 93–94.
[14]Clark, Thales to Dewey, 178–179. Doze séculos depois o filósofo francês René Descartes (1596–1650) repetiu este argumento com sua versão do cogito ergo sum (“Penso, logo existo”). Mas ele fez esta proposição da premissa (i.e., seu ponto de partida) de que toda verdade é para ser derivada. Essa foi a falácia de Descartes.
[15]Colin Brown, Christianity and Western Thought (Downers Grove, Ill.: Inter-Varsity, 1990), 1:96–97.
[16]Warfield, Calvin and Augustine, 422.
[17]Ronald H. Nash, The Light of the Mind: St. Augustine’s Theory of Knowledge (Lexington, Kent.: University Press of Kentucky, 1969), 24ff.
[18] O melhor livro que eu li sobre a questão da Odisséia é o de Gordon H. Clark, God and Evil: The Problem Solved (Unicoi, Tenn.: Trinity Foundation, 2004 [rep.1961]). Veja também W. Gary Crampton, “A Biblical Theodicy,” TheTrinity Review (Trinity Foundation, January 1999).
[19]Atualmente o sistema filosófico dualista é auto-referencialmente absurdo. Se houvesse duas co-eternas e duas co-iguais divindades, nós nunca poderíamos dizer que uma era boa e a outra má. Sem um padrão superior para determinar o que é bom e o que é mal, os termos bom e mal não podem ser postulados para nenhuma coisa. Mas se há um padrão superior (i.e., alguma coisa sobre as duas divindades), então não há dualismo.
[20]Norman L. Geisler and William D. Watkins, Worlds Apart (Grand Rapids:Baker, 1989), 25–26.
[21] Utilizamos a tradução da Confissão de Fé de Westminster disponíbilizada pela Monergismo em: http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm
[22] Sobre esta imagem, veja Gen 25:19-26.
[23] Warfield, Calvin and Augustine, 369–381, 369.
[24] É significante que a Igreja Católica Romana (apesar de sua crença na regeneração batismal) vê esta data como o momento da conversão de Agostinho, ao invés de antes de 386.
[25] Citado por Brown, Augustine of Hippo, 129.
[26] “Católico” aqui significa “universal,” e não deve ser confundido com Católico Romano. “Católico” é derivado de duas palavras gregas: kata (de acordo com) e holos (todo).
[27] Hipona hoje é chamada Bona. Ela está localizada no leste da Algéria, não muito distante das fronteiras com a Tunísia.
[28] Uma “sé” é uma área que está debaixo da autoridade de um bispo ou de outro oficial da igreja.
[29] Para um gráfico útil das edições e traduções de seus trabalhos, veja Augustine through the Ages (xxxv–xlii). Para uma melhor compreensão das datas e explanações, see pp. xliii–il.
[30] Brown, Augustine of Hippo, 419–433; Piper, The Legacy of Sovereign Joy, 41–42.
[31] Roger Hazelton, “The Devotional Life,” in Companion 398.
[32] Augustine, Expositions on the Book of Psalms; Piper, The Legacy of Sovereign Joy, 64–69.
[33] Piper, The Legacy of Sovereign Joy, 62–63.
[34] Augustine, On The Gospel of John 17:6.
[35] Joseph B. Bernardin, “St. Augustine as Pastor,” in Companion, 85–86.
[36] F. Nigel Lee, John Calvin: True Presbyterian (Brisbane, Australia: Jesus Lives Series, 1981), 10–11.
[37] Bernardin, “St. Augustine as Pastor,” in Companion, 57ff.
[38] Para uma melhor explanação da doutrina agostiniana da oração, veja Thomas A. Hand, Augustine on Prayer (New York: Catholic Books, 1986).
[39] “Sacramento” deriva do Latim sacramentum que quer dizer “uma coisa posta a parte como sagrada.” É a tradução latina do grego musterion (“mistério”) que nós encontramos em 1 Timóteo 3:16 e Efésios 5:32.
[40] Louis Berkhof, The History of Christian Doctrines (Grand Rapids: Baker, 1937), 242–243. Berkhof notou que Pedro Lombardo (1095–1160) foi o primeiro a nomear os sete sacramentos da Igreja Católica Romana: batismo, ceia, matrimônio, confirmação, penitência, ordenança e extrema unção. Infelizmente, Agostinho fez uso do termo “sacramento” indistintamente, algumas vezes aplicando-o mais com referência aos “ritos” do que ao batismo e a ceia.
[41] Peter Toon, Born Again: A Biblical and Theological Study of Regeneration (Grand Rapids: Baker, 1987), 81–83.
[42] A doutrina Católica Romana da transubstanciação sustenta que na ceia, quando corretamente administrada por um sacerdote, o pão é literalmente transformado em corpo de Cristo, e o vinho é literalmente transformado em sangue de Cristo. Há uma “mudança de substância” – ou seja, “transubstanciação.” A Confissão de Fé de Westminster (29:6) corretamente ensina “que a doutrina que sustenta uma mudança de substância do pão e do vinho em corpo e sangue de Cristo (comumente chamada de transubstanciação) pela consagração de um sacerdote, ou por qualquer outro meio, é repugnante não apenas às Escrituras, mas também ao senso comum e a razão; ela derruba a natureza do sacramento, e foi e é a causa de muitas superstições; sim, de grotescas idolatrias.
[43] Louis Berkhof, Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1939, 1941), 645.
[44] Philip Schaff, “Preface,” The Nicene and Post-Nicene Fathers, 7:iii.
[45] Veja George Lawless, “Preaching,” in Ages, 675–77.
[46] Veja R. C. Sproul, Knowing Scripture (Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 1977), 54–55; João Calvino e os reformadores criticaram este tipo de interpretação bíblica, e optaram pelo método sensus literalis (“sentido literal”). Veja John Calvin, Commentaries, vols. 1–2 (Grand Rapids: Baker, 1981), Commentary on 2 Cor 3:6.
[47] Karla Pollmann, “Hermeneutical Presuppositions,” in Ages, 426–29.
[48] Berkhof, The History of Christian Doctrines, 229.
[49] Citado em Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith (Nashville: Nelson, 1998), 838.
[50] Tarsicius J. van Bavel, “Church,” in Ages, 170.
[51] Este era o ponto de vista do escritor de teologia sistemática em questão, o professor C. Gregg Singer, Systematic Theology Lectures (Salisbury, North Carolina: Atlanta School of Biblical Studies, 1983).
[52] Warfield, Calvin and Augustine, 472.
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Agostinho, vida e legado 2 (Por Gary Crampton)

Aurélio Agostinho nasceu em 13 de Novembro de 354 em Tagaste, Norte da África (atualmente Souk Ahras, Algéria). Seu pai, Patricius, era naquele tempo, um não-crente. Por outro lado, sua mãe Mônica era uma cristã. Ela ensinou a seu filho os princípios fundamentais do Cristianismo desde os seus primeiros anos. Agostinho disse mais tarde que nunca conseguiu se desvencilhar completamente desses ensinamentos em sua mente. No soberano e providencial plano de Deus foi à educação de fé de Mônica, junto com suas persistentes orações por seu filho pródigo que eventualmente guiaram a conversão de Agostinho em 386. Na Páscoa de 387 ele recebeu o sacramento do batismo (Conf. 9:6).

Agostinho não foi batizado como um infante (Conf. 1:11:17-18) devido a dois fatores: Primeiro, o desinteresse de seu pai; e segundo, o desejo de Mônica de que os pecados de seu jovem filho não o perseguissem antes da purificação dos pecados. Tinham alguns na igreja primitiva que esperavam alcançar a idade adulta para se batizarem a fim de que todos os seus pecados da juventude fossem removidos no ato do batismo. Esta primitiva doutrina do batismo regenerador ainda está em vigor na Igreja Católica Romana. De fato, o próprio Agostinho sustentou uma forma modificada deste ensino (Ench., 43, 52, 119). Por exemplo, em suas Confissões, ele sustentou que foi no momento do seu batismo em água que ele recebeu a segurança do perdão de pecados (Conf. 9:6).

Nosso renomado santo escreveu suas Confissões depois que se tornou bispo de Hipona em 396, o título dessa obra foi extraído do Salmo 32:5. Jaroslav Pelikan afirma que “se Agostinho tivesse escrito apenas Confissões, ele ainda assim teria que aparecer na lista dos maiores escritores e das grandes obras, o que pode ser notado pelo fluxo constante de cuidadosas edições críticas e traduções modernas dessa obra” (Ages, xiii).

Grande és Tu, Senhor, e grande é o Teu poder, e a Tua sabedoria não tem fim. E o homem, como parte de Tua criação, deseja Te adorar – homem, que carrega sobre si a sua mortalidade, que testifica o seu pecado e ainda o testemunho de que Tu “resistes ao soberbo”, – Todavia, esta parte de Tua criação anseia Te adorar. Tu que nos leva a deleitar-nos em Te adorar; pois Tu nos tens formado para Ti e a nossa alma fica inquieta enquanto não repousa em Ti. (Confissões 1:1)


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Agostinho, vida e legado 1 (Por Gary Crampton)

Santo Agostinho (AD 354-430) é considerado o pós-apostólico “santo patrono” tanto da Igreja Católica Romana quanto do Protestantismo. Ele foi canonizado por Roma como “Santo Agostinho,” e dentro dos círculos do Catolicismo Romano se coloca como o segundo em importância, atrás apenas de São Tomás de Aquino (1225-1274). Porém isso é uma profunda ironia, pois ainda que Agostinho tenha sido um membro da Igreja Católica (desde que se opôs ao sectarismo dos Donatistas) e sustentou a catolicidade da igreja (i.e., sua universalidade), ele não foi um Católico Romano, e nem teriam eles o direito de considerá-lo como um dos seus.

É verdade que Agostinho aceitou uma forma mono-episcopal de governo da igreja e parece também que apoiou a idéia de que o bispo Romano detinha a primazia. No entanto, Agostinho ensinava isso numa perspectiva que destacava o fato de ser ele “o primeiro entre os iguais”. De modo nenhum ele via o bispo Romano como o supremo pontífice e vigário de Cristo na terra. A doutrina da igreja de Agostinho era realmente muito voltada para a “alta igreja”, e por isso não poderia ser de fato considerada como Protestante. No entanto, ele não tinha a menor noção de que a igreja repousava sobre o papado, nem mesmo reconhecia alguma forma de infalibilidade papal. Somente muito mais tarde é que viriam os dogmas do Vaticano I (1869-1870); eles não eram agostinianos.

B.B. Warfield corretamente disse que a doutrina da igreja de Agostinho era uma herança de seus predecessores, enquanto que a sua doutrina da salvação pela graça somente (sola gratia) por meio da fé (sola fide) somente em Cristo (sola Christus) não era. Esta que é a mais crucial doutrina claramente distingue Agostinho do Catolicismo Romano e o posiciona entre os Reformadores. Warfield escreveu: “Pois, no seu interior, o que era a Reforma, senão o triunfo da doutrina da Graça de Agostinho sobre a sua doutrina da igreja.” E “o verdadeiro Agostinho era o Agostinho da doutrina da graça.”

De fato, tão dominante era a doutrina de Agostinho da salvação unicamente pela graça por meio da fé somente, que a igreja medieval atribuiu-lhe o título de “doutor da graça” (doctor gratiae). Sem dúvida, Agostinho deve ser reconhecido como um santo Protestante. Em outras palavras de Warfield: “Agostinianismo é apenas uma expressão que salienta a tese da religião [Protestante] em sua pureza.”

Agostinho é destacadamente considerado o melhor erudito e teólogo do período pós-apostólico da igreja primitiva. O historiador Gregg Singer escreveu: “Como uma teologia, Agostinianismo representa a suprema conquista da igreja primitiva.” O notável historiador da igreja, Hans Von Campenhausen, afirmou que Agostinho era “o único pai da igreja que mesmo hoje permanece como um poderoso intelectual” (Augustine through the Ages, xiii [hereinafter: Ages]). Basicamente a teologia de Agostinho era o que nós hoje chamamos “Calvinismo”. Embora ele nunca escreveu uma summa, tal como As Institutas da Religião Cristã (1539-1559) de Calvino ou a Summa Theologica (1265-73) de Tomás de Aquino, contudo sua influência sobre toda a teologia Protestante é inegável. O Enchiridion (“manual”), escrito em 421, é o seu melhor tratado de teologia sistemática Cristã, no qual ele dá um sucinto esboço das doutrinas básicas da fé.

As três maiores heresias que Agostinho confrontou: Maniqueísmo, Donatismo e Pelagianismo, todas essas serviram para afiar a sua intrepidez teológico-filosófica. Como resultado, Agostinho deixou um enorme corpo de escritos, incluindo mais de 200 livros, além de umas 220 cartas. Aparentemente, Agostinho estava bem ciente da importância de seus escritos, isso é o que podemos auferir quando lemos Retratações, uma obra escrita bem perto do fim de sua vida (426-428). Neste trabalho ele pesquisou e revisou alguns de seus primeiros ensinamentos. Notoriamente, ele morreu durante o processo de edição de seus escritos.

Para uma bibliografia sobre Agostinho, é quase que impossível lidar com uma tão vasta multidão de trabalhos escritos sobre ele e suas obras, e muito menos lê-los. A enciclopédia autorizada Agostinho através das Eras tem 900 páginas, 500 verbetes e foi produzida por aproximadamente 150 eruditos. Isto evidencia que seus escritos “são uma parte integral do desenvolvimento do pensamento ocidental” (Ages, xv). De fato, ele pode bem ser o mais influente teólogo e filósofo da história da igreja cristã. Adolf Harnack o chamou de o maior homem “entre o apóstolo Paulo e o Reformador Lutero que a igreja cristã já teve.” Daniel Williams declarou que “a teologia no Cristianismo Ocidental tem sido uma série de notas de rodapé de Agostinho.” E John Mourant escreveu: “Na história do pensamento ocidental poucos homens alcançaram a profundidade, a originalidade e a estatura intelectual de Agostinho. Ele tem sido apropriadamente caracterizado como um dos maiores pensadores de todos os tempos. Na civilização ocidental ele criou toda uma atmosfera de opinião filosófica e teológica que não apenas determinou o curso do pensamento ocidental em seu período formativo, mas que virtualmente afetou o seu desenvolvimento histórico até nossos dias”. Em uma palavra, o pensamento Cristão e os caminhos da fé sempre tiveram e sempre terão o impacto desse gênio. Michael Signer notou que “ele era um dos mais reverenciados autores do período patrístico” (Ages, 473).

Para ser claro, há erros na teologia e filosofia de Santo Agostinho, porém precisamos ter em mente que toda a pós-apostólica teologia Reformada, num sentido bem realista, é “fazer teologia” enquanto se está de pé sobre os ombros do grande bispo norte-africano. E mesmo alguns anões são capazes de ver mais claramente do que gigantes da teologia quando estão de pé sobre seus ombros.

[tradução minha da obra "The Life and Legacy of Augustine" de W. Gary Crampton]


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