Uma tradução da obra de Gary Crampton
Aurélio Agostinho[1] nasceu em 13 de Novembro de 354 em Tagaste, Norte da África (atualmente Souk Ahras, Algéria). Seu pai, Patricius, não era cristão naquele tempo.[2] No entanto, Mônica, sua mãe, era cristã.[3] Ela ensinou-lhe os princípios fundamentais do Cristianismo desde os seus primeiros anos. Mais tarde, Agostinho comentou que nunca conseguiu se desvencilhar completamente desses ensinos em sua mente. Na soberania e providência divina foi à educação de fé de Mônica e as suas persistentes orações por seu filho pródigo que eventualmente guiaram a conversão de Agostinho em 386. Na Páscoa de 387 ele recebeu o sacramento do batismo (Conf. 9:6).
Agostinho não foi batizado como um infante (Conf. 1:11:17-18) devido a dois fatores: Primeiro, o desinteresse de seu pai; e segundo, o desejo de Mônica de que os pecados de seu jovem filho não o perseguissem depois da purificação. Tinham alguns na igreja primitiva que esperavam alcançar a idade adulta para se batizarem a fim de que todos os seus pecados da juventude fossem removidos no ato do batismo.[4] Esta antiga doutrina do batismo regenerador ainda está em vigor na Igreja Católica Romana. De fato, o próprio Agostinho sustentou uma forma modificada desse ensino (Ench., 43, 52, 119). Por exemplo, em suas Confissões, ele asseverou que foi no momento do seu batismo em água que recebeu a segurança do perdão de pecados (Conf. 9:6).
Nosso renomado santo escreveu suas Confissões depois que se tornou bispo de Hipona em 396. O título dessa obra foi extraído do Salmo 32:5. Jaroslav Pelikan afirma que “se Agostinho tivesse escrito apenas Confissões, ele ainda assim teria que figurar na lista dos maiores escritores e das grandes obras, o que pode ser notado pelo fluxo constante de cuidadosas edições críticas e traduções modernas dessa obra” (Ages, xiii). Agostinho nos deixou um pouco de sua autobiografia espiritual dos primeiros trinta e três anos de sua vida. O propósito dos “treze livros de minhas Confissões,” disse Agostinho, é o de “adorar o justo e bondoso Deus pelos meus atos bons e maus, e aumentar o entendimento e as afeições dos homens por Ele” (Retr. 2:32). Isto fica explícito bem no início do livro, onde lemos:
Grande és Tu, Senhor, e grande é o Teu poder, e a Tua sabedoria não tem fim. E o homem, como parte de Tua criação, deseja Te adorar – homem, que carrega sobre si a sua mortalidade, que testifica o seu pecado e ainda o testemunho de que Tu “resistes ao soberbo”, – Todavia, esta parte de Tua criação anseia Te adorar. Tu que nos leva a deleitar-nos em Te adorar; pois Tu nos tens formado para Ti e a nossa alma fica inquieta enquanto não repousa em Ti. (Conf. 1:1)
Utilizando as Confissões como nosso guia primário, tendo também como fonte a obra Agostinho de Hipona de Peter Brown, abordarei de início a peregrinação espiritual de Agostinho.[5] A partir de então, observaremos de modo global as suas obras e ensinos.
O Início
Os pais de Agostinho desejavam que seu filho precoce fosse educado na melhor escola disponível (Conf. 2:3:5). Até mesmo o casamento com uma “digna” esposa deveria ser adiado para depois da conclusão de seus estudos (Conf. 2:3:8). Assim, após receber rigoroso treinamento em Tagaste durante os seus primeiros dias, quando Agostinho atingiu a idade de onze anos foi enviado para Madaura (onde hoje é a Algéria) para mais cinco anos de estudos avançados. Em Madaura ele adquiriu amplo conhecimento dos poetas, oradores e línguas, particularmente o Latim. Curiosamente, Agostinho nunca foi um mestre no Grego, nem mesmo aprendeu o Hebraico (Conf. 11:3).
De Madaura Agostinho foi para Cartago para mais estudos (371-374). Lá, aos dezessete anos, ele apropriou-se de uma concubina anônima[6], a qual se tornaria o amor de sua vida.[7] Naqueles dias isso era comumente aceito e legitimado na prática – não apenas no ambiente civil, mas também na igreja[8] – para alguém que vive com uma amante até que conseguisse o direito de torná-la sua esposa. Neste ponto Agostinho estava seguindo os costumes pecaminosos de seus dias. Um ano mais tarde no seu aniversário de dezoito anos, Agostinho e sua concubina tiveram um filho chamado Adeodatus (“dádiva de Deus”).
Enquanto ainda estava em Cartago, Agostinho, aos 19 anos, descobriu a disciplina da filosofia através da leitura de Hortensius de Cícero (também conhecido como “Sobre a Filosofia”). O precoce jovem que sempre tivera um zelo pelo conhecimento era agora consumido por isso. Sobre Hortensius, ele disse, “inflamou-me” (Conf. 3:4).
Digno de nota é o fato de que mesmo depois de sua conversão à fé cristã, Agostinho continuou acreditando que era proveitoso estudar os escritos de não-cristãos. Por exemplo, em sua Cidade de Deus ele falou sobre o talento preponderante tal como em Aristóteles, Plotino e Platão. Ele comentou particularmente que “aqueles filósofos platonistas excederam a todos os outros em reputação e autoridade apenas porque eram os mais próximos da verdade que os demais, ainda que estivessem a uma longa distância do caminho” (City 8:5-12; 11:5).
Agostinho reconheceu que Deus deu uma medida de entendimento a todos os homens, e que os cristãos também podem aprender com os pensadores não-cristãos. Todos estes estudos, porém, devem ser feitos com grande cuidado para não “caírem no erro”. E ainda, disse ele, todo estudo deve ser analisado à luz do ensino das Escrituras, pois apenas a Bíblia é a inspirada, infalível e inerrante Palavra de Deus (Enchir. 8:16-17; Epp. 82:1:3).
Olhando a sua vida regressa a partir da conversão de sua alma, Agostinho falou daqueles tempos como sendo de inquietude. Embora não tenha percebido isso, ele necessitava de um Salvador. Ele era o filho pródigo da parábola de Jesus (Lucas 15:11-32), um alheio à sua formação cristã. Como um garotinho levado, Agostinho estava maquinando o mal. Aos dezesseis anos, ele rouba pêras do quintal do vizinho, embora não gostasse delas. Ele pecava, e confessava, simplesmente pelo prazer de pecar:
Quem pode desfazer esse nó complicado? Eu odeio refletir sobre isso. Eu odeio analisar isso. Eu quero a Ti [Deus]… Em Ti é perfeito o descanso e a vida não muda… [Mas] Eu afundo longe de Ti, Ó meu Deus, e Eu vago distante de Ti, minha estadia, na minha juventude, tornou-se para mim mesmo uma terra infrutífera. (Conf. 2:10)
O filósofo W. T. Jones em seu viés anticristão sugeriu que o incidente da árvore de pêra de Agostinho não era nada mais do que um “exagero neurótico de culpa e pecado num descompasso doentio”. No entanto, quando experienciou a regeneração, Agostinho viu o pecado da forma como ele realmente é, uma afronta à santidade de Deus, enquanto que Jones apenas o via como uma forma de “descompasso doentio”.[9]
A Atração do Maniqueísmo
Em Cartago Agostinho foi atraído pelo ensino dos maniqueístas (Uma seita de ascetas persas materialistas). Neste momento de sua vida havia duas coisas em particular que o levaram a rejeitar as Escrituras cristãs. (1) O problema do mal; e (2) as afirmações antropomórficas em relação a Deus. Supostamente, os maniqueístas respondiam ambas as questões.
O problema de Agostinho com relação ao mal se devia principalmente a sua própria tendência de pecar. Ele tinha que lidar com uma terrível batalha interior: “Eu era jogado para lá e para cá,” ele escreveu, “e gastou, e derramou, e ferveu em minhas fornicações” (Conf. 2:2). Este problema “me cansou e me levou para os braços dos hereges,” i.e., os maniqueístas (Free 1:2:4).
A solução do maniqueísmo para o problema do mal eram suas crenças num radical dualismo. Mani, que fundou esta religião gnóstica no terceiro século, declarou-se o prometido “Paracleto[10] e o maior de todos os profetas. Ele ensinou que havia dois absolutos, independentes e co-eternos princípios ou deuses: um era bom (luz) e o outro mal (trevas). Por serem ambas as divindades absolutas, independentes e co-eternas, nenhuma delas é capaz de vencer a outra. Elas devem existir juntas no decorrer de toda a eternidade.[11] O homem, por isso, tem uma desculpa legítima para seu pecado; ele não é responsável por ele. Como afirmou Agostinho: “Por que ainda me parecia ‘que não éramos nós que pecamos, mas outra natureza que pecava em nós.” (Conf. 5:10)
Em relação ao antropomorfismo na Escritura, os maniqueístas explicavam o Deus das Escrituras por meio de uma forma antiga de alta crítica. Eles tomavam literalmente as afirmações antropomórficas concernentes a Deus. Se a Bíblia diz que Deus tem olhos (Sal 32:8), ouvidos (Sal 54:2), braços (Isa 52:10) e assim por diante, então ele deve ter um corpo limitado. Os maniqueístas também negavam que Cristo tomou sobre si mesmo uma genuína natureza humana. Na mentalidade gnóstica, a materialidade é necessariamente má. Agostinho escreveu: “parecia-me a coisa mais incoerente crer que Tu [Deus] tinhas a forma humana” (Conf. 5:10).
Sendo assim, os maniqueístas concluíram que o Deus da Bíblia não pode verdadeiramente ser Deus. Além disso, eles (erroneamente) ensinaram que o Antigo Testamento afirmou certo número de atividades pecaminosas (p.e., poligamia, a leviandade de Sansão, e outras). Esse livro, eles afirmaram, não pode ser reconhecido como Palavra de Deus. Além do mais, Mani e seus seguidores desfizeram a noção de “fé,” particularmente tal como está definida no Cristianismo. “Fé”, eles sustentaram, é contrária a “razão”. Nessa época, Agostinho não era capaz de combater a esses falsos ensinos (Conf. 5:10).
Entretanto, nas disciplinas de filosofia, matemática e astronomia, os maniqueístas deixaram a mente indagadora de Agostinho sem resposta em muitas questões. Até mesmo seu principal mestre, Fausto (nascido em 340), foi incapaz de esclarecer suas dúvidas. Agostinho ficou desiludido com o Maniqueísmo e mais tarde expôs suas falácias. Por exemplo, ele devotou a primeira parte do seu De utilitate credendi [Sobre o benefício de crer] (c. 391) para refutar os ataques maniqueístas ao Antigo Testamento. E em seu Contra Faustum [Manichaeum] (c. 398), ele desmascarou os falsos ensinos de Fausto.
Durante todo esse período Mônica seguiu pranteando por seu filho pródigo. Numa visita a Ambrósio, bispo de Milão, ele lhe disse: “Deixe-o [Agostinho] onde está por um tempo, limite-se a orar por ele a Deus; ele descobrirá por si mesmo, através da leitura, o erro e toda a impiedade dessa doutrina.” Depois, exagerou o bispo: “Vá e siga teu caminho, Deus te abençoará, pois não é possível que possa perecer o filho de tantas lágrimas [das de Mônica]” (Conf. 3:12).[12]
Primeiras Reflexões Filosóficas
Entre os anos 375-383 Agostinho trabalhou como professor de retórica em Tagaste (375) e Cartago (376-383). Depois disso ele se mudou para Roma para lecionar por mais um ano. Foi lá que ele se deparou com a filosofia da Nova Academia: Ceticismo. Os céticos entendem que ninguém pode chegar ao conhecimento da verdade. Ainda que seduzido inicialmente por esta filosofia, Agostinho nunca abraçou-a completamente. Muitos anos depois (386) ele expôs a inconsistência racional do Ceticismo em sua Contra Academicos.
Em seus escritos, por exemplo, Agostinho afirmou que a imutabilidade das leis da lógica e das fórmulas matemáticas específicas (p.e., que 7 + 3 = 10) são suficientes para minar a noção cética de que o conhecimento não é atingível. Além disso, ele escreveu que mesmo que alguém diga que duvide de algo ele está ainda assim afirmando uma forma de conhecimento. Se alguém não tem conhecimento sobre um assunto como poderia duvidar da crença de alguém? Em acréscimo, Agostinho asseverou que o Ceticismo se contradiz ao afirmar que nada pode ser conhecido, pois se nada pode ser conhecido, então não podemos saber se não sabemos nada.[13]
A famosa afirmação de Agostinho dubito ergo sum (“duvido, logo existo”) vem de sua controvérsia com os acadêmicos. Agostinho disse que para duvidar é necessário alguém que duvide. Mesmo que alguém duvide que exista, ainda assim ele está duvidando, e por isso, existindo a fim de duvidar. Então, algum conhecimento parece ser claramente necessário. Gordon Clark sustentou que Agostinho usou este argumento num estilo ad hominem (“para o homem”) “para forçar a admissão de pelo menos um caso de intuição intelectual,” com relação ao cético. A partir da aceitação desse ponto o cético pode observar o erro de sua crença de que nada pode ser conhecido. Por isso, o uso que Agostinho faz do argumento dubito não deve ser considerado como uma “prova” racional da existência de Deus. Ao invés disso, é meramente uma parte de um reductio ad absurdum (i.e., redução ao absurdo), uma metodologia apologética que procura mostrar a futilidade dos falsos sistemas de pensamento.[14]
A Influência de Ambrósio
Finalmente, em 384, Agostinho veio a Milão como um professor de retórica. Ali ele esteve sob o ensino e o ministério de pregação de Ambrósio (ca. 337-97), o qual desempenhou um papel fundamental para a conversão de Agostinho. Ambrósio explanou as Escrituras para seu jovem pupilo Agostinho (que era quatorze anos mais jovem) de um modo que ele nunca tinha feito antes. Agostinho mais tarde escreveu que no princípio (como um retórico), ele estava impressionado pelo “quão habilmente ele [Ambrósio] falava”; mas gradualmente ficou mais impressionado pelo “quão verdadeiramente ele falava” (Conf. 5:14). “Para Milão eu vim,” Agostinho escreveu, “para o bispo Ambrósio… Seu [Deus] servo devoto… Para ele eu era desconhecidamente conduzido por Ti, de modo que por ele eu pudesse intencionalmente ser guiado para Ti” (Conf. 5:13).
Ambrósio mostrou a Agostinho que ele estava lendo o Antigo Testamento com um exagerado literalismo. A Bíblia não ensina o que os heréticos maniqueístas sustentam. O Deus das Escrituras não é para ser pensado em termos corporais. “Deus é Espírito” (João 4:24), e “um espírito não tem carne e osso” (Lucas 24:39). Além do mais, Ambrósio argüiu que apesar da Bíblia testemunhar os atos pecaminosos dos homens, tais como a poligamia e a promiscuidade sexual, ela não tolera esses atos; mas, de fato, os condena.
Ambrósio também ensinou Agostinho que Deus não nos chama à fé sem razão; nem que ele endossa a razão sem fé. Ao invés disso, a partir de um teísmo bíblico, Deus nos chama para raciocinar por meio da fé (i.e., Escritura). Para se argumentar propriamente é preciso ter antes de tudo um ponto axiomático sobre o qual todo o argumento possa se fundamentar. E na cosmovisão cristã o axioma é que a Bíblia é a inspirada, infalível e inerrante Palavra de Deus. Consequentemente, a autoridade da Escritura é estabelecida como o ponto de partida que precede a razão. Ela complementa a razão, mas não a suplanta (Ep. 120). Agostinho mais tarde escreveu: “A fé que busca encontra o entendimento: por isso o profeta diz: ‘A menos que creias não entenderás’” (Trinity 15:2).
Esta citação bíblica de Isaías 7:14 da Septuaginta (a tradução grega do hebraico do Antigo Testamento) é o verso sobre o qual Agostinho baseou seu bem conhecido dictum: credo ut intelligam, “Eu creio para que eu possa entender.” Alguém deve ser capaz de raciocinar para entender o ensino da Escritura. Cristianismo não é uma fé cega, mas uma fé racional.[15] Ao explanar sobre a relação entre fé (revelação) e razão (lógica), Agostinho escreveu:
Por esta razão, se for encontrado algo que contradiz a autoridade das Escrituras sagradas, isto se apresenta apenas como um engano decorrente de sua semelhança à verdade, pois, por mais que sejam agudas, tais deduções não podem ser tidas como verdadeiras. Por outro lado, se contra o mais evidente e confiável testemunho da razão alguém alega autoridade tal qual a das Santas Escrituras, quem faz isso o faz mediante equívoco interpretativo, e se coloca contra a verdade e o real significado da Escritura, da qual tem falhado em descobrir o seu sentido por apresentar a própria opinião. Ele alega não o que está nas Escrituras, mas o que ele acha por si mesmo segundo as suas próprias interpretações (Ep. 143:7).
E assim para Agostinho, disse Warfield, “fé e razão nunca são concebidas como antagônicas, contraditórias, mas sempre como co-adjuvantes, cooperando para um fim comum.”[16] Porém a fé na Escritura é aquela sobre a qual tudo se baseia. Uma vez convertido, Agostinho, que confiou plenamente na Bíblia como a infalível e inerrante Palavra de Deus, naturalmente acreditava em tudo o que ela ensinava (True, 24, 36; City 11.3-4).[17]
Em Milão o ainda não convertido Agostinho também se deparou com o Neoplatonismo através dos escritos antigos do filósofo egípcio Plotino (205-70). Agostinho juntamente com as Escrituras também estimou os ensinos dos neoplatonistas. Ele obteve um entendimento muito maior da transcendência de Deus e salientou que Deus não estava limitado pelo tempo e espaço. Agostinho estava aprendendo mais sobre o mundo espiritual.
Foi também em Milão que Agostinho lidou com o problema do mal. Desde que as Escrituras ensinam que Deus, que é onipotente e bondoso, tem decretado todas as coisas desde a eternidade, e se por sua soberania e providência controla todas as coisas no universo que criou, como pode existir o mal no mundo a menos que Deus seja o seu autor? Como podemos justificar as ações de Deus em meio ao mal? Esta é a questão da “teodicéia.” O termo “teodicéia” é derivado de duas palavras gregas (theos “Deus” e dike “justiça”) e desenvolve uma justificativa para a bondade e justiça de Deus à luz do mal no mundo.[18]
Primeiro, através de seus estudos sobre o Neoplatonismo (que ele nunca adotou completamente), Agostinho encontrou uma resposta à doutrina maniqueísta do dualismo.[19] Desde que Deus criou todas as coisas boas (Gen 1:31), o mal não pode ter uma existência independente. Mal é a ausência do bem (privatio boni), apenas como a escuridão é a ausência da luz. O mal, então, é parasitário, não pode existir sem o bem. Ele corrompe as coisas boas, sendo uma distorção do que é bom.
Sendo este o caso, Agostinho ponderou, Deus não é a causa eficiente (causa efficiens) do mal. Ao invés disso, o mal surgiu como uma causa deficiente (causa deficiens) na criatura humana. O mal sendo a ausência do bem mesmo no plano preordenado de Deus é o resultado do afastamento do homem aos mandamentos de Deus por um bem inferior: a vontade da criatura, do homem. Aqui está a essência do mal. Assim, ele sustentou que é o homem, não Deus, o autor do mal (Cidade de Deus, 11:9; 13:3; 14:3; Morals, 5:7).[20]
Agostinho geralmente não é bem compreendido neste ponto. Ele não estava negando que o mal é uma força poderosa no mundo e nem que Deus é a causa soberana de todas as coisas. Ele teria concordado com o ensino que mais tarde postularia a Confissão de Fé de Westminster (5:4),[21] que “a onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira Queda [de Adão] e a todos os outros pecados dos anjos e homens.” De acordo, porém, com a Confissão 5:4, Deus, como a causa primeira e soberana usa as causas secundárias, tais como os desejos pecaminosos dos homens para trazer os seus decretos soberanos: Assim, “a pecaminosidade disso procede apenas da criatura, e não de Deus, que sendo totalmente santo e justo não é e nem pode ser o autor ou o que aprova o pecado.”
Baseando-se nisso, Agostinho demonstrou apenas as causas secundárias do pecado. E a causa secundária no caso de Adão era a sua escolha por um bem menor (o desejo egoísta da criatura), ao invés do supremo bem (a vontade do Criador). A escolha por um bem menor em detrimento da vontade de Deus foi a essência do pecado. A fonte do mal pôs na criatura a vontade por si mesmo. Desta forma, foi um amor egoísta (“a perversão da vontade” do homem), ao invés do amor por Deus, que trouxe a Queda (Conf. 7:16). “Por isso, não há necessidade”, escreveu Agostinho, “no que se refere aos nossos pecados e vícios, levar o nosso Criador a injustiça de pôr a culpa sobre a natureza da carne que é boa em suas próprias peculiaridades e em seu próprio grau. Mas não é bom abandonar o bondoso Criador e viver segundo o padrão de um bem criado” (Cidade de Deus 14:5).
Agostinho estava batalhando com diversos assuntos que estavam diante dele. Agora havia tanto para falar, duas crianças brigando no ventre[22] de sua mente: Cristianismo e Paganismo. Nesse tempo, Mônica fez preparativos para um casamento para seu filho: uma moça de um lar cristão em Milão. A amante de Agostinho por quinze anos reconheceu que devia liberá-lo de suas obrigações. Conseqüentemente, ela retornou à África, deixando Agostinho e seu filho. Ela deixou Agostinho por que o amava; e ele igualmente a amava profundamente. Ele escreveu: “Minha amada sendo arrancada do meu lado como um impedimento para o meu casamento, meu coração, que fendeu por ela, foi atormentado, ferido e sangrado. E ela, deixando comigo nosso filho, voltou para a África, fazendo um voto a Ti [Deus] de nunca mais conhecer outro homem” (Conf. 6:15.
Por ter a garota que Mônica escolhera para casar com seu filho apenas doze anos, Agostinho teria que esperar dois anos para que o casamento pudesse ser consumado. Isso foi mais do que o voluptuoso jovem podia conceber. Incapaz de ficar sem uma companheira, ele foi morar com outra concubina. Durante esse tempo, enquanto lutava com suas paixões que o escravizavam, Agostinho teve contato com os ensinos um tanto que obscuros de certo monge egípcio chamado Antônio. O que mais o impressionara nesse monge foi que mesmo não possuindo uma genialidade como a sua ele era capaz de controlar suas paixões, o que não acontecia com o erudito Agostinho (Conf. 8:6).
Sua Conversão
Agostinho percebeu que precisava de ajuda por ser um prisioneiro de suas próprias concupiscências. Certo dia, tendo meditado no jardim e clamado a Deus para ajudá-lo em seu desespero, ele ouviu a voz de uma jovem criança que cantava tolle lege (“toma e lê”). Agostinho interpretou isso como “toma e lê a Bíblia.” Quando abriu as Escrituras, o primeiro trecho que lhe veio para ler foi Romanos 13:13-14: “Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências.”
“Não quis mais ler,” disse Agostinho, “nem era mais necessário; pois, imediatamente, ao concluir a leitura de tais palavras, penetrou-me no coração uma espécie de luz serena, e todas as trevas da dúvida se dissiparam” (Conf. 8:12). Deus regenerou seu servo, e Agostinho respondeu ao chamado; ele era um homem convertido, uma nova criatura em Cristo (2 Cor. 5:17). Louvando a Deus pela sua conversão, Agostinho escreveu: “Ó Senhor, verdadeiramente eu sou vosso servo, sim, vosso servo e filho de vossa serva. Quebrastes as minhas cadeias! Eu oferecerei a Ti sacrifício de louvor.” E por causa disso “Já o meu coração estava livre de torturantes cuidados, de ambição, de ganhos, e desse revolver-se e esfregar-se na sarna das paixões… Tu [és] o meu fulgor, minha riqueza, minha salvação, Senhor, meu Deus” (Conf. 9:1). Era o ano 386 e Agostinho tinha trinta e dois anos.
Depois de renunciar a seu posto de professor de retórica, Agostinho foi para um curto período de isolamento em Cassiciacum (perto de Milão). Ele estudou as Escrituras e tirou algum tempo para conversar com Adeodatus, Mônica e alguns de seus amigos. Ele também começou a escrever. Entre alguns escritos do período, ele escreveu Contra Academicos (uma refutação do Ceticismo), De Beata Vita (um tratado sobre a felicidade tal como é apenas encontrada no triúno Deus das Escrituras), e Soliloquiorum Libri Duo (um diálogo entre Agostinho e sua Razão). Como destacou Warfield, nos anos que se seguiram pudemos ver um grande avanço da perspicácia teológica de Agostinho. Há uma remoção gradual das influências pagãs, tanto quanto o abandono do pensamento Semipelagiano (“Arminiano”). Progressivamente, Agostinho migrou em direção ao entendimento “Calvinista” das Escrituras (como melhor expresso nos padrões de Westminster). Porém mesmo nestes primeiros escritos, nós nos deparamos com alguém que já é “um pensador profundamente devotado e verdadeiramente cristão.”[23] Juntamente com seu filho convertido, Agostinho foi batizado pelo bispo Ambrósio na Páscoa de 387.[24]
Agostinho e Mônica no seu caminho de volta à África quando ela ficou doente e morreu em Óstia, Roma. Ela tinha cinqüenta e seis anos. Apenas dois dias antes os dois haviam desfrutado de um tempo maravilhoso de comunhão cristã tal como nunca haviam tido antes. Agostinho descreveu esse momento da seguinte forma:
“Falávamos a sós, muito docemente… Enquanto assim falávamos, anelantes pela Sabedoria, atingimo-la momentaneamente num ímpeto completo do nosso coração. Suspiramos e deixamos lá agarradas as primícias do nosso espírito. Voltamos ao vão ruído dos nossos lábios, onde a palavra começa e acaba” (Conf. 9:10).[25]
Mônica expressou seu último deleite diante da nova fé achada em seu filho. Agostinho pregou no funeral de sua mãe em Óstia.
Agostinho gastou um breve período de tempo em Roma onde novamente encontrou os maniqueístas. Ele escreveu dois livros em defesa do Cristianismo e em refutação ao Maniqueísmo: De moribus ecclesiae catholicae et de moribus Manichaeorum (Sobre a moral dos maniqueístas e da igreja católica).[26]
Insaciável Acadêmico
Em 388 Agostinho e seu filho retornaram a Tagaste. Tal como João Calvino depois dele, Agostinho pretendia permanecer recluso em seus estudos. Ele tornou o seu lar uma semi-monástica comunidade. Lá ele permaneceu por três anos em isolamento, e pode dar continuidade aos seus estudos das Escrituras, escrita de livros e cartas, e discorrer com outros quanto à necessidade e racionalidade do Cristianismo. Adeodatus morreu durante esse período quando tinha apenas 16 anos.
Em 391 Agostinho viajou para Hipona (Hippo Regius)[27], uma cidade predominantemente donatista. Lá, como servia a Igreja Católica, ele foi reconhecido pelo bispo Valerius (d. 396). Esse, pela sua idade avançada não tinha mais condições de lidar com todos os seus deveres na igreja. Além disso, ele reconheceu que suas habilidades no ensino, na pregação e no debate não eram comparáveis com às de Agostinho. E por perceber que a Igreja Católica precisava de uma voz forte contra os donatistas, convidou os seus paroquianos a procurarem por um ministro para servir ali. Assim, Agostinho foi escolhido e ordenado como presbítero de Hipona. Lá ele pregou, realizou todas as suas tarefas de presbítero e ainda fundou um monastério perto da igreja, desenvolvendo também o seu ministério como escritor.
Em 395 Agostinho foi promovido a bispo auxiliar da sé em Hipona.[28] Um ano depois Valério morreu, e Agostinho se tornou o único bispo de Hipona. Como as rigorosas regras da igreja africana proíbem a remoção de bispos (exceto em casos extremos de disciplina), Agostinho permaneceu bispo de Hipona até o fim de sua vida (embora em 426 tenha indicado Heráclito como seu sucessor). Durante esse tempo Agostinho enfrentou o ensino herético dos donatistas e pelagianos, contra os quais ele escreveu extensamente. Dentre os escritos desse período podem ser citados De correctione Donatistarum (Sobre a correção dos donatistas), De peccatorum meritis et remissione (Sobre os méritos e a remissão dos pecados), e De gratia et libero arbitrio (Sobre a Graça e a Vontade Livre). A pequena Hipona ficou famosa como o grande Agostinho que se tornou o principal teólogo cristão e o filósofo da igreja no Ocidente.
Outros importantes trabalhos que Agostinho concluiu durante os trinta e quatro anos restantes de sua vida foram Confessiones [Confissões] (397-400), De baptismo [Sobre o Batismo] (400), De doctrina Christiana [Sobre a doutrina cristã] (397-426), De trinitate [Sobre a Trindade] (397-420), Enchiridion ad Laurentium, seu de fide, spe et caritate [Manual] (421), De civitate Dei [Cidade de Deus] (413-426) e Retractationes [Retratações] (426-428). Ele também escreveu grande quantidade de Cartas, Sermões e Exposições sobre os Salmos.[29]
Perto do fim da vida de Agostinho, os góticos arianos (bárbaros europeus) rodearam a cidade de Hipona. Uma vez que a destruição era iminente e sua vida corria perigo, ele foi aconselhado a fugir para outra cidade. Entretanto, preocupado com a honra de Deus mesmo depois de sua morte, Agostinho recusou tal alternativa. De modo especial, ele requisitou que os Salmos penitenciais de Davi fossem pendurados nas paredes de sua sala. Seu desejo era o de passar pelos portões do céu com esses Salmos em seus lábios, empunhando tais promessas como suas próprias. Quão bem ele entendeu a doutrina da salvação somente pela graça mediante a fé somente e através da redenção que há somente em Cristo. Ele morreu no dia 28 de agosto de 430.[30]
Como Roger Hazelton destacou, Santo Agostinho viu sua vida como uma jornada da alma rumo ao seu estado final: vida na presença de Deus. Esta foi a sua derradeira Visio Dei: a visão beatífica. A vida de um cristão é uma peregrinação, disse o bispo de Hipona; ele está sempre em marcha. Conhecer a Deus é amá-lo sinceramente, e amá-lo é buscá-lo com todas as forças do seu coração, alma e entendimento (Marcos 12:30). Agostinho foi verdadeiramente um homem “viciado em Deus”. Ele foi alguém consumido por um zelo pela glória de Deus e pelo avanço do seu reino. Ele não apenas estabeleceu as bases do pensamento cristão para todas as gerações que se seguiram após ele, mas “também marcou as diretrizes da devoção cristã a partir de seus tempos até os nossos. Sua marca sobre os caminhos da oração no Ocidente cristão não são menos profundos e duráveis do que sua monumental influência teológica.”[31]
Agostinho falou da necessidade de se manter uma forte vida devocional mediante estudo bíblico e oração. Ele reconheceu a necessidade do indivíduo “conhecer intimamente a verdade” antes de “viver por ela.” E a oração é um meio pelo qual a verdade é “infundida na alma”. “A fim de que venhamos a obter uma vida verdadeiramente abençoada, ele que é em si mesmo a Verdadeira Vida Abençoada [Cristo] nos ensinou a orar” (Ep 130:8:15). Como Paulo, a teologia de Agostinho sempre conduzia em direção à doxologia.[32]
Assim como Paulo, este grande bispo ensinou que o amor de Deus, alimentado por uma forte vida devocional, deve trabalhar na vida cristã. Dessa forma, pode ser dito de Agostinho que não apenas teve uma forte vida devocional, mas que sua vida inteira foi marcada pela devoção. Alguém que tem o amor de Deus, ele ensinou, transborda em amor pelas coisas de seu reino. “A vida inteira de um bom cristão”, ele escreveu, “é um santo desejo.” Ou, para dizer de outro modo, sugeriu John Piper, Agostinho manteve que “a chave para a vida cristã é uma sede e fome por Deus.”[33] Isto, ensinou Agostinho, era o que o Senhor disse ser a suma de toda a lei em Mateus 22:37-40.[34]
Ministério Pastoral
Embora St. Agostinho é melhor conhecido como um acadêmico, nós devemos lembrar que ele foi primeiro e principalmente um pastor para o povo de Deus. Joseph Bernardin ressalta isso nesta consideração:
A preeminente influência de Agostinho como teólogo e doutor da igreja é sensível em cada era e desse modo ofuscado sua grandeza como pastor, a influência daquilo que foi experienciado principalmente durante sua vida. Entretanto, o fato notável é que apesar de todo o tempo gasto com sua produção literária cujo alvo era definir a teoria de vida dentro igreja, ele mesmo viveu ativamente o que ensinou. Ele é um excelente exemplo de um grande e verdadeiro pastor de almas tal como deveria ser encontrado ao longo da história cristã. Por ter amado a Deus com todo o seu ser, tanto com seu coração e mãos quanto com sua cabeça [mente], ele amou e serviu seus companheiros. Ele conheceu suas ovelhas e foi conhecido por elas.[35]
Os comentários de Bernardin são apropriados, Agostinho tinha um verdadeiro coração para a igreja de Cristo. Ele continuamente trabalhou para a sua paz, prosperidade e pureza. Nigel Lee sumarizou o ideal do bispo norte-africano para a igreja: “Nos fundamentos – unidade! Nas coisas não essenciais – diversidade! Em todas as coisas – caridade!” [36]
Como notado anteriormente, depois de sua conversão, Agostinho buscou viver uma vida de reclusão acadêmica. Porém, na providência de Deus isso não haveria de perdurar. E, ao ser ordenado sacerdote pela Igreja Católica, é dito que ele chorou pela magnitude da responsabilidade que estava assumindo. Ele serviu por aproximadamente trinta e cinco anos e classificou seu ofício de bispo como um ofício de labor, não de honra (City 19:19).
Em suas funções de bispo, Agostinho sentou sobre a corte da igreja para ouvir disputas e estabelecer julgamentos bíblicos. Ele tinha um contínuo ministério junto aos pobres, órfãos, perseguidos, enlutados, prisioneiros, i.e., sobre aqueles que padeciam necessidades. Seu chamado exigia que viajasse pelas regiões de Hipona assistindo suas cinco igrejas estabelecidas. Em cada uma delas ele seria chamado para pregar, administrar os sacramentos, realizar cerimônias de casamento, funerais, entre outras atividades ministeriais. Seu ministério era exigente e árduo,[37] porém em todo o tempo ele permaneceu um ardente estudante das Escrituras. Ele foi igualmente fervente em suas orações por si mesmo, por seu trabalho e pelo avanço do reino de Deus. Ele particularmente acentuou a importância da oração do Pai Nosso (Sal. 86:1-2; Serm. 6-9).[38]
Quando Agostinho falou dos “sacramentos”[39], ele tão predominantemente considerou os dois sacramentos protestantes: batismo e ceia.[40] Para Agostinho os sacramentos são os sinais visíveis da graça invisível. Ele os considerou como essenciais, como um meio de graça, para a saúde e o crescimento espiritual. “Espiritualmente entendido,” ele escreveu, um sacramento “vivificará. Embora seja útil que seja visivelmente celebrado, contudo precisa ser espiritualmente entendido” (Sal. 99:8). E ainda, ele disse: “A importância destes sacramentos não pode ser exagerada, e apenas os escarnecedores os tratarão com displicência. Pois se a piedade os recomenda, negligenciá-los será uma blasfêmia.
Quando tratou do batismo, Agostinho ensinou que ele deveria ser administrado tanto aos cristãos quanto às suas crianças (Ep. 98:1-3). Entretanto, ele (erroneamente) sustentou uma modificada forma de regeneração batismal. Ele acreditava que a graça é transmitida àquele que se batiza, ainda que se trate de crianças. Ele ensinou que o batismo remove a culpa do pecado original e também todos os pecados cometidos antes de se receber a ordenança (Enchir 42-43; 66; Ep. 98:1-10). Neste sentido, o batismo é necessário para a salvação.[41] Porém, mesmo aqui Agostinho não ensinou que o “trabalho operado” é transmitido pelo elemento (água), mas pelo Espírito Santo. E ele ainda sustentou que o receptor do batismo é sempre responsável pela recepção da graça oferecida pela fé.
Infelizmente, Agostinho também sustentou muitas outras falsas doutrinas – doutrinas que a Igreja Católica Romana pratica: dar esmolas meritórias, penitência, purgatório, orações pelos mortos e a distinção entre o pecado mortal e venial (Enchir. 46, 64, 67-69, 72, 75, 110). Tais ensinos não são aceitáveis. Ainda que também deve ser lembrado que Agostinho viveu nos mais primitivos dias do (pós-apostólico) Cristianismo. Ele (com os primeiros pais da igreja) estava no processo de elaboração do próprio dogma da fé cristã.
Quanto à ceia, Agostinho a considerou como essencial para o crescimento do Cristianismo. Ela tinha que ser administrada pelo menos uma vez por semana para os crentes e suas crianças batizadas (pedocomunhão) (Serm. 174:7). Porém, ele não aderiu aquilo que posteriormente seria conhecida como a doutrina Católico Romana da transubstanciação.[42] Como Berkhof escreveu: “Enquanto que ele [Agostinho] não falou do pão e do vinho como o corpo e sangue de Cristo, ele distinguiu o sinal e a coisa significada, e não acreditou numa mudança de substância.”[43] Nós vemos isto mais claramente na obra Cidade de Deus.
Agostinho também foi um magistral apologeta. Sua Cidade de Deus é uma monumental defesa da fé cristã. Neste livro a cosmovisão cristã é brilhantemente sustentada e fortificada por um dos maiores pensadores que Deus já deu a sua igreja. Posteriormente será exposto mais sobre essa questão.
A tarefa primária do pastor, ensinou Agostinho, é a proclamação da Palavra de Deus. Philip Schaff escreveu: “Agostinho foi um insaciável pregador. Ele considerava que pregações regulares são uma parte indispensável das obrigações de um bispo.”[44] O homem que “ministra para pessoas,” ele escreveu, o faz “nos divinos sacramentos e na Palavra” (Ep. 21:3). “Nós somos ministros da Palavra, não a nossa, mas a de Deus” (Serm. 114:1). De acordo com o bispo norte-africano, pela pregação da Palavra de Deus o pastor alimenta suas ovelhas com o pão da vida.[45] Dessa forma, os pastores servem seu Senhor ao trazerem as boas novas de Cristo para seu povo. Ecoando Isaías 52:7 e Romanos 10:15 (“Quão formosos são os pés dos que anunciam o evangelho da paz e trazem as boas novas”), Agostinho afirmou que “pregadores são os pés do Senhor” (Serm. 99:13).
Muitos dos sermões de Agostinho tem sido preservados através dos séculos. Além de suas séries sobre Salmos, Evangelho de João e a Epístola de João, há aproximadamente 400 outros sermões de praticamente cada parte da Bíblia. E apesar de ter havido momentos em que Agostinho teve a tendência de se apropriar do método alegórico de interpretação das Escrituras,[46] fica explícito em sua Retractationes que em sua maturidade espiritual ele fez algumas alterações de sua abordagem exegética da Bíblia.[47]
Embora a perspectiva de Agostinho da igreja seja danificada por elementos do Catolicismo Romano, ele sustentou quatro atributos da igreja, os quais foram confessados pelos autores do Credo Niceno-Constantinopolitano (AD 381): “[Nós cremos] na igreja, una, santa, católica e apostólica.”[48] Ele definou a igreja como “a santa assembléia de todos os fiéis que são salvos,” e como a que é formada pelos “fiéis que são eleitos e justificados.”[49]
E mesmo que, como Cipriano que viveu antes dele, ele tenha sustentado que “fora da igreja não há salvação” (Bapt. 4:17:24), ao mesmo tempo, como van Bavel clarificou, Agostinho afirmou “que há salvação para o trabalhador, para a profetiza, para o bom ladrão, para os mártires não batizados, para Cornelius, para os catecumenos que morreram antes de receber o batismo, para católicos que foram excomungados.”[50] Talvez seja mais correto afirmar que Agostinho ensinara como mais tarde postulou a Confissão de Fé de Westminster (25:2), que fora da greja invisível “não há possibilidades ordinárias [sob circunstâncias normais] de salvação”, quando nós consideramos a doutrina da salvação como um todo – tanto a santificação como a justificação.[51] Esta parece ser a opinião de B.B.Warfield, que escreveu:
A doutrina agostiniana da igreja é um tema tão fascinante que por vezes é difícil tocar sem ser transportado para além dos requerimentos de nosso presente propósito. Talvez já tenha sido dito o suficiente para indicar o lugar que a igreja ocupa na doutrina agostiniana da autoridade. Na sua condição de fraqueza resultante do pecado na raça humana a igreja é a mediadora entre a revelação divina apresentada nas Sagradas Escrituras e a obscurecida mente humana, tornando-se assim uma pedagoga que guia os homens à verdade. É na igreja que a verdade é conhecida, a qual não diz respeito apenas ao fato de que é nas mãos dela que as Escrituras são encontradas, e na qual toda a verdade de Deus está infalivelmente depositada, mas também se refere ao fato que é apenas na igreja que os mistérios da fé revelados pelas Escrituras são compreendidos: pois apenas pela participação das graças encontradas nela que os homens podem esperar alcançar a visão que é a posse exclusiva dos santos. O verdadeiro conhecimento de Deus pertence à comunhão do seu povo, e fora dessa comunhão não há como alcançá-lo.[52]
[1]O primeiro (ou pessoal) nome “Aurélio” não se encontra nos próprios escritos de Agostinho, mas é comprovado por seus contemporâneos (Warfield,
Calvin and Augustine, 305).
[2]Acredita-se que Patricius mais tarde se converteu e se batizou na fé Cristã, em 370, um ano antes de sua morte. (Augustine,
Conf. 9:9; John Piper,
The Legacy of Sovereign Joy [Wheaton, Ill.: Crossway, 2000], 46.
[3] Mais tarde a Igreja Católica Romana canonizou Mônica como Santa Mônica, a Padroeira das Associações das Mães Cristãs.
[4] Roy W. Battenhouse, “The Life of St. Augustine,” in
Companion, 19–20, 56.
[5] Peter Brown,
Augustine of Hippo (Berkeley: University of California Press,1967).
[6] Joseph C. Morecraft, III, para proteger o anonimato desta não nomeada mulher, Agostinho usa as palavras
unam habitum, que é uma frase em latim para “Eu vivi com apenas uma mulher.” Morecraft, “Augustine of Hippo,”
The New Southern Presbyterian Review, Fall 2006: 79.
[7] Mais tarde, quando Agostinho finalmente se separou de sua amada concubina, isso o feriu mortalmente. Ele disse que seu coração “foi atormentado, rasgado e sangrado” (
Conf. 6:15).
[8] Veja Warfield,
Calvin and Augustine, 353, 356.
[9] Citado em Gordon H. Clark, “Augustine of Hippo,”
The Encyclopedia of Christianity,ed. by E. H. Palmer (Wilmington: National Foundation for Christian Education,1964), I:489.
[10] “Paracleto” é a palavra grega para “ajudador.” As profecias de Cristo relacionadas com a vinda do paracleto se encontram em João 14:16, 26; 15:26.
[11] W. A. Hoeffecker, “Manichaenism,”
EDT, 683–684.
[12] A afirmação de Ambrósio é uma deturpação da Escritura. As lágrimas de alguém não salvam ninguém. Muitos pais têm sofrido a perda spiritual de seus filhos mesmo depois de terem feito muitas súplicas e derramado muitas lágrimas em prol da salvação deles. A Escritura é clara em seu ensino de que temos que orar pelo perdido (1 Tim 2:1–4). Porém Deus é absolutamente soberano quanto à salvação (Efé 1:3–14). Paulo disse: “Ele tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rom 9:18).
[13]Gordon H. Clark,
Thales to Dewey (Unicoi, Tenn.: Trinity 14 Foundation, 2000 [rep. 1957]), 177–181; Norman L. Geisler e Paul D. Feinberg,
Introduction to Philosophy: A Christian Perspective (Grand Rapids: Baker, 1980), 93–94.
[14]Clark,
Thales to Dewey, 178–179. Doze séculos depois o filósofo francês René Descartes (1596–1650) repetiu este argumento com sua versão do
cogito ergo sum (“Penso, logo existo”). Mas ele fez esta proposição da premissa (i.e., seu ponto de partida) de que toda verdade é para ser derivada. Essa foi a falácia de Descartes.
[15]Colin Brown,
Christianity and Western Thought (Downers Grove, Ill.: Inter-Varsity, 1990), 1:96–97.
[16]Warfield,
Calvin and Augustine, 422.
[17]Ronald H. Nash,
The Light of the Mind: St. Augustine’s Theory of Knowledge (Lexington, Kent.: University Press of Kentucky, 1969), 24ff.
[18] O melhor livro que eu li sobre a questão da Odisséia é o de Gordon H. Clark,
God and Evil: The Problem Solved (Unicoi, Tenn.: Trinity Foundation, 2004 [rep.1961]). Veja também W. Gary Crampton, “A Biblical Theodicy,”
TheTrinity Review (Trinity Foundation, January 1999).
[19]Atualmente o sistema filosófico dualista é auto-referencialmente absurdo. Se houvesse duas co-eternas e duas co-iguais divindades, nós nunca poderíamos dizer que uma era boa e a outra má. Sem um padrão superior para determinar o que é bom e o que é mal, os termos bom e mal não podem ser postulados para nenhuma coisa. Mas se há um padrão superior (i.e., alguma coisa sobre as duas divindades), então não há dualismo.
[20]Norman L. Geisler and William D. Watkins,
Worlds Apart (Grand Rapids:Baker, 1989), 25–26.
[22] Sobre esta imagem, veja Gen 25:19-26.
[23] Warfield,
Calvin and Augustine, 369–381, 369.
[24] É significante que a Igreja Católica Romana (apesar de sua crença na regeneração batismal) vê esta data como o momento da conversão de Agostinho, ao invés de antes de 386.
[25] Citado por Brown,
Augustine of Hippo, 129.
[26] “Católico” aqui significa “universal,” e não deve ser confundido com Católico Romano. “Católico” é derivado de duas palavras gregas:
kata (de acordo com) e
holos (todo).
[27] Hipona hoje é chamada Bona. Ela está localizada no leste da Algéria, não muito distante das fronteiras com a Tunísia.
[28] Uma “sé” é uma área que está debaixo da autoridade de um bispo ou de outro oficial da igreja.
[29] Para um gráfico útil das edições e traduções de seus trabalhos, veja
Augustine through the Ages (xxxv–xlii). Para uma melhor compreensão das datas e explanações, see pp. xliii–il.
[30] Brown,
Augustine of Hippo, 419–433; Piper,
The Legacy of Sovereign Joy, 41–42.
[31] Roger Hazelton, “The Devotional Life,” in
Companion 398.
[32] Augustine,
Expositions on the Book of Psalms; Piper,
The Legacy of Sovereign Joy, 64–69.
[33] Piper,
The Legacy of Sovereign Joy, 62–63.
[34] Augustine,
On The Gospel of John 17:6.
[35] Joseph B. Bernardin, “St. Augustine as Pastor,” in
Companion, 85–86.
[36] F. Nigel Lee,
John Calvin: True Presbyterian (Brisbane, Australia: Jesus Lives Series, 1981), 10–11.
[37] Bernardin, “St. Augustine as Pastor,” in
Companion, 57ff.
[38] Para uma melhor explanação da doutrina agostiniana da oração, veja Thomas A. Hand,
Augustine on Prayer (New York: Catholic Books, 1986).
[39] “Sacramento” deriva do Latim
sacramentum que quer dizer “uma coisa posta a parte como sagrada.” É a tradução latina do grego
musterion (“mistério”) que nós encontramos em 1 Timóteo 3:16 e Efésios 5:32.
[40] Louis Berkhof,
The History of Christian Doctrines (Grand Rapids: Baker, 1937), 242–243. Berkhof notou que Pedro Lombardo (1095–1160) foi o primeiro a nomear os sete sacramentos da Igreja Católica Romana: batismo, ceia, matrimônio, confirmação, penitência, ordenança e extrema unção. Infelizmente, Agostinho fez uso do termo “sacramento” indistintamente, algumas vezes aplicando-o mais com referência aos “ritos” do que ao batismo e a ceia.
[41] Peter Toon,
Born Again: A Biblical and Theological Study of Regeneration (Grand Rapids: Baker, 1987), 81–83.
[42] A doutrina Católica Romana da transubstanciação sustenta que na ceia, quando corretamente administrada por um sacerdote, o pão é literalmente transformado em corpo de Cristo, e o vinho é literalmente transformado em sangue de Cristo. Há uma “mudança de substância” – ou seja, “transubstanciação.” A
Confissão de Fé de Westminster (29:6) corretamente ensina “que a doutrina que sustenta uma mudança de substância do pão e do vinho em corpo e sangue de Cristo (comumente chamada de transubstanciação) pela consagração de um sacerdote, ou por qualquer outro meio, é repugnante não apenas às Escrituras, mas também ao senso comum e a razão; ela derruba a natureza do sacramento, e foi e é a causa de muitas superstições; sim, de grotescas idolatrias.
[43] Louis Berkhof,
Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1939, 1941), 645.
[44] Philip Schaff, “Preface,”
The Nicene and Post-Nicene Fathers, 7:iii.
[45] Veja George Lawless, “Preaching,” in
Ages, 675–77.
[46] Veja R. C. Sproul,
Knowing Scripture (Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 1977), 54–55; João Calvino e os reformadores criticaram este tipo de interpretação bíblica, e optaram pelo método
sensus literalis (“sentido literal”). Veja John Calvin,
Commentaries, vols. 1–2 (Grand Rapids: Baker, 1981),
Commentary on 2 Cor 3:6.
[47] Karla Pollmann, “Hermeneutical Presuppositions,” in
Ages, 426–29.
[48] Berkhof,
The History of Christian Doctrines, 229.
[49] Citado em Robert L. Reymond,
A New Systematic Theology of the Christian Faith (Nashville: Nelson, 1998), 838.
[50] Tarsicius J. van Bavel, “Church,” in
Ages, 170.
[51] Este era o ponto de vista do escritor de teologia sistemática em questão, o professor C. Gregg Singer,
Systematic Theology Lectures (Salisbury, North Carolina: Atlanta School of Biblical Studies, 1983).
[52] Warfield,
Calvin and Augustine, 472.